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Grupo usa a arte para debater cotidiano dos adolescentes

Primeiro encontro debateu os impactos positivos e negativos da era digital com jovens e adolescentes a partir da exibição de um curta-metragem; Encontros do grupo Arte & Juventude acontecem no Centro da Juventude Nagib Harmuche/Texto de Karin Franco, com reportagem de Juarez Oliveira

Primeiro encontro do grupo Arte & Juventude debateu os impactos positivos e negativos da era digital com jovens e adolescentes a partir da exibição de um curta-metragem. Foto: Divulgação

Usar a arte como uma propulsora de discussões e reflexões sobre a atualidade é um dos objetivos do Grupo Arte & Juventude, um projeto realizado por meio da Secretaria de Assistência Social de Irati, no Centro da Juventude Nagib Harmuche, em Irati. Os encontros acontecem todas às quartas, às 14h, e às sextas-feiras, às 9h30, com adolescentes de 13 a 17 anos.

A assistente social e responsável pelo Grupo Arte & Juventude, Francieli Princival, explica que a ideia surgiu após discussões com profissionais do Centro da Juventude sobre como a arte está no cotidiano dos jovens. “Percebemos que eles estão muito conectados com essa questão da arte seja pela música, até mesmo agora na pandemia e no pós-pandemia, vimos a criação das dancinhas do Tik Tok. Pensamos em arte porque engloba todas essas linguagens, linguagens corporais e que estão realmente ligadas e conectadas a esses adolescentes e jovens. Pensando muito em algo atrativo para eles”, conta.

Por meio desse contato com a arte, o grupo quer auxiliar o jovem a refletir sobre o que está acontecendo ao seu redor. “O objetivo central do grupo é ir construindo novos saberes, costurando novos saberes com eles, trazendo essas reflexões para que eles possam ter novas ideias e também trazer novas ideias para nós. É um espaço muito de debate, de construção coletiva. Falamos que vamos costurando saberes, que é uma troca, tanto eles trazem ideias para nós como nós levamos ideias para eles. Pensamos muito nessa ideia do coletivo, onde eles possam também se sentirem pertencentes desses grupos”, explica Francieli.


O primeiro encontro aconteceu no dia 29 de junho e discutiu os impactos positivos e negativos da era digital com jovens e adolescentes, a partir da exibição do curta curta-metragem It´s our World "É o nosso mundo", do ilustrador Steves Cutts. “Esse curta, apesar de ser três minutos, ele traz diversas reflexões ao longo do vídeo. O Steves traz um menininho que ele busca o tempo inteiro interações, conexões humanas e ele não consegue porque ninguém enxerga ele, porque todo o tempo as pessoas estão conectadas nas mídias sociais, no celular e ninguém consegue enxergar ele. Vai passando, ele vai andando em diversos cenários, onde as pessoas vão aparecendo. Tem várias cenas que são bem impactantes e são muito reais”, conta a assistente social.

É por meio das cenas que as reflexões são trazidas aos jovens. “Teve uma cena onde a mulher está tirando foto para o Instagram e ela está toda feliz na foto. Por trás dessa foto, mostra uma imagem dela triste. Isso traz uma reflexão, e foi algo que eu trouxe, dessa sociedade moderna, o quanto ela está mascarada, de aparência e a sociedade, mesmo a sociedade capitalista no modo geral, ela impõe para as pessoas, para nós também, que temos que estar o tempo inteiro feliz, que não podemos demonstrar vulnerabilidade. Nós não podemos ser vulneráveis. Temos que ser todo o tempo forte”, disse Francieli.

Responsável pelo grupo Arte & Juventude e assistente social, Francieli Princival, e a coordenadora do Centro da Juventude, Patrícia Helena Borges, falaram como é desenvolvido o projeto em entrevista no programa "Espaço Cidadão" da Super Najuá. Foto: Juarez Oliveira 

 O curta ainda trouxe reflexões mais profundas. “Outra cena também que foi bem forte, a única menina que não consegue fazer interação porque ela não está usando o celular. Ela está dançando na rua. Está todo mundo filmando ela, mas no fim, eles estão filmando para fazer chacota dela. No final do curta, é bem interessante e bem impactante, foi até pesado, mas eu acho que precisamos demonstrar mesmo essa realidade, para podermos refletir, e essa mesma menina se suicida no final do vídeo e é o que acontece atualmente que o mundo está muito individualista. Cada um pensa só em si. As pessoas não estão interagindo mesmo. Não estão tendo essas conexões que deveriam ter para podermos ter essa troca, podermos poder contar com o outro, podermos conseguir se colocar no lugar do outro, a questão da empatia também”, explica.

Após a exibição do curta, os adolescentes debateram sobre como a tecnologia afeta seu cotidiano. “Eles fizeram uma auto-percepção de como acontece. O quanto estamos desconectados com a família, de quanto eles estão desconectados com a família, não tem tempo. Chega em casa, já corre no celular, está na internet. Não tem esse tempo para família, para conversar, para poder interagir com a família. ‘Como que foi o dia’. Também falado que está sentindo. A família também, se pensarmos, os pais estão o tempo inteiro trabalhando, também chega em casa, estão no celular. Não tem essa interação e isso percebemos que tem cada vez mais defasado a questão da saúde mental, que foi algo também que debatemos brevemente”, conta a assistente social.

Os próprios adolescentes apontaram o uso excessivo do celular. “Eles trouxeram que realmente cada um fica no celular, não conversa. Eles saem junto, mas é só sair junto para mexer no celular. E eles também trouxeram uma discussão dos pontos positivos e negativos da tecnologia porque a tecnologia tem os pontos positivos também. Se soubermos usar, utilizá-la tanto para os estudos, como alguns trouxeram”, relata.

Há temas pré-estabelecidos, mas os adolescentes também podem compartilhar ideias que podem ser desenvolvidas no grupo. Não há um tempo máximo para o desenvolvimento do projeto. “Pretendemos que os mesmos que participaram no primeiro, vão participando, para criarmos esse vínculo, criarmos esse ambiente onde eles se sintam confortáveis para podermos fazer essa troca, conhecer e, a partir das histórias que eles vão trazendo de vida, vamos pensando nos outros temas”, afirma Francieli.

Os encontros ainda devem envolver atividades ligadas à música, poesia, dança, esporte e jogos.

A intenção é que essas atividades possam auxiliar o jovem a pensar em sua realidade. “Às vezes, o que falta para os adolescentes é ter um espaço onde eles possam parar para refletir que, às vezes, nessa correria de vai pra escola, vai para não sei onde, corre aqui, corre ali, eles não param para refletir. Nós mesmos não paramos para refletir o que estamos fazendo. Acho que esse grupo pretende, nesse sentido, parar para refletir. Eu acho que essa reflexão, com certeza, eles vão levar para o dia a dia da família”, disse.

Para participar, é preciso ir ao Centro da Juventude. “O ideal é que eles já vão lá porque fazemos a ficha de inscrição, já conseguimos conversar bem certinho com os pais, como que funciona, até conversar um pouco sobre os temas, para que os pais também se sintam confortáveis em mandar. Nós podermos ver a questão do turno escolar, para ver qual o horário que adapta melhor”, explica.

O Centro da Juventude faz parte da proteção social básica, dentro da política de assistência social de Irati. O espaço é público, aberto à comunidade, mas com atividades focadas em adolescentes de 12 a 18 anos.

O local abriga diversas atividades em horário integral. “O objetivo do Centro da Juventude é afastar esses jovens da situação de vulnerabilidade social e exposição ao risco. Realizamos algumas ações para favorecer a formação pessoal, profissional e política do adolescente”, disse a coordenadora do Centro da Juventude, Patrícia Helena Borges.

Além do grupo Arte & Juventude, também há os grupos de cinema e diversidade no Centro da Juventude. O local ainda oferece uma programação de oficinas de guitarra, bateria, jiu-jitsu, tênis de mesa, vôlei, karatê, futsal, dança gaúcha e curso de informática básica. Todas as oficinas são gratuitas. Mais informações podem ser obtidas no telefone (42) 3132-6267.

Confira fotos do Centro da Juventude. Imagens: Paulo Sava