Publicidade Topo

notícias

Serviço de Abordagem Social presta assistência à população de rua em Irati

Em entrevista à Najuá, a Coordenadora do Serviço de Abordagem Social, Somaya Adnan Reda, e a pedagoga, Saionara Franco, explicaram como funciona o serviço/Texto: Karin Franco, com reportagem de Juarez Oliveira

Representantes do Serviço de Abordagem Social de Irati, Somaya Adnan Reda e Saionara Franco contaram detalhes do trabalho realizado no município durante entrevista à Najuá. Foto: Juarez Oliveira

A chegada do frio traz a preocupação sobre como ajudar pessoas que estão nas ruas. Em Irati, o Serviço de Abordagem Social presta assistência à população de rua durante todo ano com acolhimento, doações e abrigo.

A coordenadora do Serviço de Abordagem Social e da Casa de Passagem, a assistente social Somaya Adnan Reda, conta que o serviço é voltado às pessoas em situação de rua e mulheres vítimas de violência, atendendo durante todo o dia. “O nosso serviço é específico para eles. Durante o ano todo atendemos eles, tanto no verão, quanto no inverno, porém é um serviço 24 horas porque também atendemos através do plantão. Estamos em contato com eles direto ali. Eles nos procuram também por conta das demandas, não é só por conta do frio, muitos deles perdem os documentos, então auxiliamos na retirada do documento, no vínculo familiar. E durante o inverno, fazemos a distribuição de cobertores, auxilia na distribuição de sopa. Fazemos um trabalho bem legal com essas pessoas que estão em situação de rua no nosso município”, conta Somaya.

O serviço segue um protocolo de atendimento que guia a equipe sobre como as atividades devem ser realizadas. Primeiramente, a equipe faz uma ronda no município para verificar como estão os moradores de rua. “O nosso serviço antes, lá por umas quatro, cinco horas da tarde, já fazemos uma ronda na cidade, já vamos até eles, já vemos o que estão necessitando, já vemos quem quer acolhimento, quem não quer e aí distribuímos os cobertores”, explica.


Depois, a equipe fica de plantão para chamados durante à noite e aos finais de semana. As pessoas podem ligar para informar sobre alguma situação que ocorre no município em relação às pessoas em situação de rua. “Quando recebemos essas ligações, a primeira coisa que perguntamos é se está alcoolizado, se está passando mal porque muitos relatos são esses. ‘Está aqui caído, passando mal, está desmaiado, está alcoolizado’. A primeira coisa tem que ligar para o SAMU. Esse é o primeiro. Depois desse procedimento, se é esse, o PA [Pronto Atendimento] nos informa, nós vamos atender”, afirma Somaya.

Um dos motivos de chamar o SAMU é a segurança da pessoa em situação de rua e da equipe. Já houve casos de pessoas alcoolizadas que passaram mal na van da equipe, enquanto estavam em atendimento. Por isso, uma parceria entre as secretarias municipais permite que seja a equipe de saúde a primeira a avaliar a situação. “Se encontrar uma pessoa que esteja alcoolizada, muitos delas, às vezes, estão até em coma, estão machucados, tem que passar pela saúde. Então, liga para o SAMU. O SAMU vai buscar, leva para o PA, o PA faz todo o atendimento. Depois o PA liga para o plantão. E vemos qual é a demanda porque muitos deles, as pessoas que estão alcoolizadas na rua hoje, que sabemos quem são eles, residem no município, eles têm uma casa no município. Eles não são pessoas em situação de rua, eles estão em situação de rua naquele momento por conta do uso da substância, não é que eles não tenham onde morar”, detalha a coordenadora do Serviço de Abordagem Social.

No caso de pessoas não alcoolizadas, o atendimento segue com o serviço. “Quando não é uma pessoa alcoolizada, quando é só uma pessoa em situação de rua, nós colhemos informações: onde que está, qual que é o local? Nos deslocamos, com a equipe de plantão, e vai até lá ver qual que é a necessidade. Se eles querem o acolhimento na Casa de Passagem, se eles querem apenas cobertores ou se é do nosso município porque muitas pessoas são do nosso município. Às vezes, ficam perdidas, às vezes, não conseguem voltar para casa por alguma determinada situação. Vemos o que conseguimos fazer naquele momento para aliviar aquela situação”, explica.

Há situações que as pessoas não aceitam ir para o abrigo. “Tem alguns dos nossos moradores que por conta de algo que ocorreu dentro da casa, da nossa Casa de Passagem, por ter regras, porque todo lugar tem regras. Muitos não podem ficar na Casa de Passagem. Só que oferecemos o cobertor ou, às vezes, a questão de como são moradores daqui, oferecemos a questão do retorno para a família. E vamos realizando esse tipo de atendimento com eles”, disse a pedagoga do Serviço de Abordagem Social, Saionara Israelita Franco.

A coordenadora explica que o uso de substâncias é uma das explicações para essa recusa. “Eles não querem por conta do uso da substância. Na nossa Casa não é permitido. Até porque já tiveram algumas situações que colocaram cuidadores em risco, outros acolhidos, a equipe técnica, então ele sabe que não pode ficar na Casa e eles querem fazer o uso da substância. E aí eles preferem ficar na rua mesmo”, conta Somaya.

De acordo com a coordenadora, são as pessoas em situação de rua que tomam a decisão de onde querem ficar. “Eles têm direito. E o direito deles de ficar na rua, eles também têm. Muitas vezes, eles falam: ‘Vocês vão vir tirar a gente daqui?’. Nós não podemos tirar ninguém da rua. Nós sabemos, temos um serviço com a Promotoria, é um serviço bem sério que fazemos e não temos o poder de tirar ninguém de onde eles estão. Da praça, por exemplo, eles podem permanecer na praça. Ele sai se eles quiserem. Nós oferecemos, mas se eles não quiserem, eles vão continuar na praça”.

A pedagoga ressalta que o serviço não faz trabalhos de higienização, nem retira pessoas contra a vontade delas. “Não fazemos essa limpeza social que muitas vezes a população quer que façamos. Estão ali, são pessoas em situação de rua, estão na frente de um determinado local. É feio deles estarem ali, mas eles têm o direito de ficar ali. Se eles não querem o nosso atendimento, se eles não querem o atendimento do SAMU, se eles não querem ir até a casa de passagem, eles têm o direito de ficar ali”, conta Saionara.

As pessoas podem ser retiradas apenas se estiverem cometendo alguma violação. “Se eles não estão incomodando, se eles não estão depredando patrimônio público, se eles não estão perturbando a ordem, quem que vai tirar? Nem a Guarda [Municipal] não pode. Porque recebemos protocolos, recebemos ofícios que vem do Judiciário, que vem da promotora, que não podemos nem encostar a mão neles. Não temos esse direito porque podemos responder um processo sim. Se eles não estão causando problema nenhum da ordem, nada, eles podem permanecer. Agora, se eles estiverem infringindo alguma lei, a segurança pública, enquanto Guarda Municipal e PM [Polícia Militar] pode retirar eles do local”, explica a coordenadora.

O serviço de Abordagem Social ainda possui parceria com a Guarda Municipal que auxilia em algumas situações. “Mas se vemos que eles estão mais alterados, nós solicitamos o apoio da Guarda Municipal, até por conta de nós e até mesmo deles, que muitas vezes eles não entendem o porquê que estamos ali. Eles acham que estamos ali para tirar eles dali ou falar que eles não podem ficar. Como falamos, eles estão em situação de rua, mas eles são pessoas de direitos e podem ficar ali onde eles estão”, conta Saionara.

Quando a pessoa em situação de rua aceita ir para o abrigo, a equipe encaminha para a Casa de Passagem. “Acabamos levando-os na nossa Casa. Nós temos cada dia um plantão de um casal de cuidadores. Lá, eles explicam todas as normas, todas as regras para eles. É o acolhimento que fornece o básico que todo cidadão precisa, que é o mínimo, o direito, é o banho, a alimentação, o pernoite, é ficar num ambiente quentinho. E ali eles têm outras pessoas que estão acolhidas na casa também. É o convivo entre eles. Quando eles aceitam. E são poucos que aceitam, infelizmente, o nosso acolhimento”, conta a coordenadora.

A Casa de Passagem abriga os migrantes, ou seja, as pessoas que apenas estão passando pela cidade. “A nossa Casa acolhe mais pessoas de fora mesmo, que são os migrantes que passam, apenas pernoitam e vão embora. Mas as nossas pessoas que estão em situação de rua são poucos que aceitam ir para o acolhimento. A não ser que esteja muito doente, precisando ficar ali por um tratamento médico, mas caso contrário eles preferem ficar na rua”, explica Somaya.

Geralmente, os migrantes já conhecem o serviço da Casa de Passagem e já vão direto ao local que abriga pessoas de outros países. “Nós temos bastante pessoas que vem da Argentina, os malabares que encontramos no semáforo. Vem venezuelano. É uma rota que eles estão indo para Guarapuava, para Cascavel. Aqui sempre é a rota deles. Eles chegam e eles já sabem até onde é a Casa. Muitos deles, às vezes, como não sabem, vão até o CAM, que fazemos o primeiro atendimento ali, na nossa sala e encaminhamos para a Casa de Passagem, mas eles ficam apenas para pernoitar porque como eles trabalham no semáforo. Mas recebemos muitas pessoas de fora, da Venezuela, Uruguai e Argentina”, disse a coordenadora do Serviço de Abordagem Social e da Casa de Passagem.

O serviço auxilia com a passagem de quem está em situação de rua e precisa ir para outra cidade. “Temos passagens para alguns municípios. ‘A gente quer passagem para Ponta Grossa, quer para passagem Guarapuava’. Muitos não querem, querem ir andando, mas oferecemos por conta que sabemos, que vai daqui a Guarapuava andando”, conta Somaya.

Com a pandemia, houve aumento das pessoas que passaram pela cidade. “O que percebemos um pouco é o aumento somente no período da pandemia. São pessoas de outros municípios que ficam em situação de rua no nosso. Alguns passam uma semana e vão embora. Passam 20 dias e vão embora. Mas no nosso município, as pessoas que residem em Irati, não são muitos, chegam no máximo a dez pessoas”, explica a coordenadora.

O serviço de passagem é apenas para pessoas em situação de rua. A coordenadora enfatiza que o serviço não é para pessoas que precisam se locomover dentro do município. “Não transportamos pessoas de lugares para lugares. Por exemplo, a pessoa saiu do PA e precisa ir para casa. Nós não fazemos esse serviço. Costumamos dizer que não somos táxi, não é Uber, não fazemos esse serviço. Não fazemos caridade. O nosso serviço é uma política pública, é um direito. Não fazemos caridade para as pessoas. Nós damos a assistência para eles, ver as demandas deles, então não fazemos caridade”, disse.

A equipe do Serviço de Abordagem é composta por psicólogos, assistentes sociais, pedagoga e motoristas que se revezam todas as noites para auxiliar no plantão. “Na nossa abordagem não é simplesmente chegar e distribuir o cobertor. Várias noites, sentamos, ficamos uma hora, uma hora e meia, sentado, conversando, entendendo a história, colhendo informações para ver qual é o trabalho que podemos fazer. Falamos que é o PIA, para vermos qual é a situação para podermos tirar eles dali, se eles quiserem”, conta a coordenadora.

O Serviço de Abordagem Social também atende casos de violência contra a mulher, principalmente nas situações em que as mulheres precisam de um abrigo. “Nós atendemos após às 17 horas. Atendemos mulheres em situação de violência doméstica, porque das 8h às 17h quem atende é a Patrulha. Temos uma parceria também muito boa com a Polícia Militar porque quem presta os primeiros atendimentos para a mulher é a PM. Eles nos encaminham, nos ligam relatando se caso a vítima não tem onde ficar, nós temos a nossa Casa de Apoio. Hoje ela é regionalizada, então temos uma vaga para mulheres de outros municípios. Se ela sofreu a violência, não tem onde ficar ou muitas vezes, ela tem os familiares, mas ela tem medo que o agressor a procure, ela vai para nossa Casa de Passagem e a equipe presta os atendimentos”, conta Saionara.

O telefone para o plantão do Serviço de Abordagem é (42) 9-9117-5939.