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Prefeito de Irati diz que obra do Centro Cultural não é concluída por questão política

Jorge Derbli e representantes do Conselho Municipal de Cultura repercutiram as declarações do governador Ratinho Junior, que afirmou que o término da obra do Centro Cultural não é prioridade do Estado/Karin Franco, com reportagem de Paulo Sava e Rodrigo Zub

Obra do Centro Cultural Denise Stoklos está paralisada há mais de dez anos. Foto: Rodrigo Zub

A reportagem da Najuá procurou o prefeito Jorge Derbli e os representantes do Conselho de Cultura de Irati, Leonardo Barroso e Milene Aparecida Galvão, para que eles pudessem se manifestar sobre as declarações do governador Ratinho Junior, que disse durante entrevista a nossa equipe no dia 2 de maio, que a conclusão da obra do Centro Cultural Denise Stoklos não é prioridade do governo estadual.

Derbli destacou que a prefeitura já analisou mudar o propósito da obra, mas verificou que o custo da mudança seria muito alto. Para ele, a finalização da obra é uma questão política. “O movimento cultural foi feito, reuniões, trouxemos pessoas ligadas à cultura. Eu já tentei, até me propus, fiz até uma enquete uma vez em mudar objeto do teatro, para tentarmos fazer uma Secretaria do Esporte ou algo semelhante, mas devido ao projeto, à execução daquele projeto só serve para teatro. É um valor muito alto, uma obra que iniciou e não terminaram. Teve o mandato do Beto Richa, teve os oito anos do Beto Richa, mais quatro anos do Ratinho. É uma obra teoricamente do Roberto Requião. Não é uma questão de prioridade, é uma questão, na minha visão, independente de eu apoiar o governador Ratinho, é uma questão simplesmente política. Essa obra não sai por questões políticas”, disse.


O prefeito explica que o município de Irati não possui recursos para terminar a obra, que chegaria a um valor de R$ 20 milhões para sua finalização. “É uma obra que foi mal dimensionada pelo tamanho da nossa cidade. Seria importantíssima essa obra na questão de ter o curso de Artes Cênicas aqui na Unicentro, de ter vários eventos, seria um presente para Irati, se tivesse pronta, não do jeito que está. Na entrada de Irati, todo mundo que chega na cidade de Irati, olha essa obra. É uma propaganda mal para a cidade, esse elefante branco que nós temos. Nós estamos aqui empenhados, todo mundo, a população, as pessoas envolvidas na cultura, mas infelizmente é uma decisão política do governo. Mas eu acredito que depois dessa eleição, voltaremos. Até a eleição, o governador já falou que não tem intenção de fazer, então nós vamos esperar passar essa campanha e vamos novamente lá fazer um mutirão de pessoas para pedir o término dessa obra”, afirma Derbli. 

Na entrevista à Najuá, Ratinho Junior disse que a obra é uma demonstração do mau uso do dinheiro público. “É uma obra da demonstração da ineficiência do estado como era no passado. Como era tratado o dinheiro público. Uma obra mal feita, um projeto mal feito, que foi gasto milhões de reais e hoje ficou esse esqueleto, esse elefante branco que a cidade não consegue sozinha fazer, o Estado teria que colocar milhões de reais para resolver e, automaticamente, dinheiro que poderia ter ido para outra área”, disse.

Para o governador, o município de Irati precisa apontar a necessidade de concluir a obra do Centro Cultural. Ele citou outras obras que estão sendo feitas em Irati com recursos do governo estadual. “Estamos fazendo uma série de obras que é importante e que é prioridade para nós, prioridade para o município. Se o município lá na frente entender que é interessante terminar essa obra, fazendo um projeto que realmente seja um projeto bom. Ver quanto que vai custar isso aí para que também analisemos para ver se não vai colocar mais dinheiro numa obra que não vai ser utilizada no volume que deveria ser utilizado, nós fazemos uma avaliação”, afirmou Ratinho Junior.

O presidente do Conselho da Cultura de Irati, Leonardo Barroso, destaca que o governador promove uma discussão vazia ao falar que a obra não está entre as prioridades do governo. “Não existe nenhuma outra obra hoje acontecendo na área da cultura em lugar nenhum do Paraná? Não tem nenhuma obra? Se você pegar hoje o histórico todas as obras que estão em andamento no Paraná, não têm nenhuma da área do esporte, de alguma área que não seja de educação, saúde e pavimentação, que é o que ele coloca como prioridade nessa fala dele? Claro que tem. Se formos atrás, vamos ver que tem. É uma discussão vazia. Não temos que ir nessa onda de dizer: ‘Ah não, mas a cultura também é prioridade’. A cultura está inserida dentro de uma realidade social junto com as outras áreas”, cita Leonardo.

Integrantes do Conselho da Cultura, Milene Aparecida Galvão e Leonardo Barroso, também opinaram a respeito das declarações do governador sobre a conclusão do Centro Cultural. Foto: Rose Harmuch

A integrante do Conselho, Milene Aparecida Galvão, reitera que o Governo Estadual já investiu em obras culturais na região. “Tem outras obras públicas da cultura sendo feitas. Tem em Inácio Martins que eles vão entregar um Centro Cultural. Recentemente foi entregue o Centro Cultural do Guamirim, a Casa da Cultura. São investimentos do Governo do Estado, do Governo Federal, para terminar obras culturais. Por que não podemos terminar o Centro Cultural que geraria tantos empregos, tanta renda e serviria para tantas outras pastas?”, questiona.

Uma das críticas à fala do governador foi em relação ao uso dos recursos em outras obras, como educação e saúde. Para Milene, o governador precisa analisar sua fala. “O gestor precisa saber que as verbas são rubricadas e são carimbadas, destinadas para cada pasta. Se a verba é da cultura, ela precisa ficar na cultura. Se a verba é da educação, fica na educação. Se é da pavimentação, fica na pavimentação. Não pode ter mistura de uso do dinheiro público. O governador precisa saber que o dinheiro público tem que ser bem aplicado. Talvez ali no momento de finalizar a obra não foi bem aplicado porque não foi terminado. Vemos isso bem explícito. Mas cada verba corresponde à sua pasta. É importante também que o governador analise nesse sentido da fala dele”, disse.

Para o presidente do Conselho de Cultura de Irati, a falta de apoio e cobrança da população em relação a obra também dificultou para que as várias gestões que passaram pelo governo estadual vissem o local como uma prioridade. “De fato, a população também negligenciou essa obra de alguma forma. Não cobrou dos nossos representantes políticos aqui e, eu discordo de muita gente que é contra essa ideia minha, mas eu acho que precisamos chamar essas autoridades junto para essa discussão, para que eles briguem do nosso lado conosco. Tem gente que acha que não, que temos que ser mais de enfrentar, de cobrar e tudo mais. Mas é como falei, se transformamos esse movimento em um movimento de oposição ao governo, de oposição ao prefeito, de oposição a quem for, estamos esvaziando o nosso movimento. Estamos, na verdade, fazendo uma receita perfeita para que ele não vá para frente”, analisa Leonardo.

Ele destaca que se a população apoiar, é possível que se encontre uma saída para a finalização da obra. “Se a população demonstrar que isso é uma prioridade, se essa população brigar por isso junto com as autoridades e pedir que essa obra seja concluída, demonstrar que isso é importante, a força política pode conseguir isso. Assim como em vários locais do Paraná, está saindo alguma obra que não seja de pavimentação, saúde e educação, porque lá foi entendido como a vontade da força política desse local”, disse.

Desde que a prefeitura de Irati realizou uma enquete cogitando a possibilidade de alterar a finalidade da obra do Centro Cultural, os artistas da região têm realizado um movimento para mostrar a importância da finalização do espaço. Eventos são realizados no local da obra com uma programação diversa reunindo artes visuais, música, dança, pintura, artesanato e teatro. O objetivo é mostrar a diversidade e a necessidade do local para a região.

Dentro desse movimento, também está a iniciativa de chamar o local como Centro Cultural ao invés do teatro, para levar a ideia que o espaço terá diferentes usos. “O Centro Cultural não é um teatro. Não é um espaço projetado apenas para peças teatrais, mas é um espaço diverso, onde caberiam vários setores e várias outras pastas da administração municipal, da administração regional. Cabe falar do artesanato, porque eu sou artesã e sou presidente da Associação Iratiense de Artesãos, cabe à educação, cabe à Unicentro ali. Cabe em vários outros setores que não apenas o teatro. Cabe a dança, cabe a música, cabe festivais, então é preciso pensar o Centro Cultural para além de um teatro”, salienta Milene.

Para ela, as manifestações no local da obra não são feitas com o objetivo de ser uma oposição ao governo, mas de reafirmar a importância da cultura na região. “E não são manifestações no sentido de oposição, de bater de frente com o governador. Mas é uma manifestação no sentido de demonstrar o quanto que é rica a cultura, a arte, a dança, a música, a literatura, a escrita, a história no município. O evento da Central Cultural, que propomos que aconteça periodicamente de quatro em quatro meses, traz artistas da região, não só de Irati. O potencial do Centro Cultural Denise Stoklos em abraçar a região inteira da Amcespar é muito grande”, conta.

Leonardo destaca que o grupo está aberto ao apoio de políticos que possam auxiliar na finalização da obra. “Se algum político a nível de Ministério, Poder Executivo Federal, Poder Executivo Estadual, Legislativo Federal, Legislativo Estadual, quiser abraçar essa causa, temos que aceitar essa pessoa nos ajudando. Se houver um interesse, se nos for sinalizado o interesse de que o Ministério do Turismo, por meio de sua Secretaria Especial, que algum Ministério que cuida especificamente de obras, que alguma autoridade, que algum deputado ou senador, que alguém dentro do Poder Executivo Estadual está disposto a nos ajudar a colocar essa obra para frente, a fazer essa obra continuar, nós vamos aceitar. Não vamos negar ajuda, ainda que não seja uma pessoa com a qual a gente politicamente vá ter afinidade. Talvez essa pessoa que venha nos ajudar, seja alguém que eu não queira votar, que eu não queira como representante, mas que ali dentro vamos receber bem essa pessoa e vai, com certeza, deixar que essa pessoa participe, que faça sua contribuição, para possamos dar continuidade à obra”, disse.

Além do pedido de apoio para a finalização da obra, o Conselho de Cultura também já pensa em propostas que possam ajudar na manutenção da obra, caso ela seja finalizada. A proposta do Conselho é que se crie um Consórcio Intermunicipal da Cultura, auxiliando na manutenção do projeto. “O consórcio é uma entidade privada. Não é o município. Não é o estado. Sendo uma entidade privada, ele faz contratos celetistas com seus funcionários. E aí você não entra naquela coisa de falar: ‘Daí você vai ter que abrir concurso e você vai gerar uma despesa que vai durar durante muitos anos para o estado, depois o funcionário se aposenta, continua gerando despesa’. Não. Fazemos um contrato celetista e enquanto o consórcio tiver disponibilidade de recursos para bancar a quantidade disso, vamos alimentando esse consórcio com esses recursos e divide entre os diversos municípios da região da Amcespar”, explica o presidente.

Milene destaca que a união dos municípios poderá ajudar com a manutenção da obra. “As obras são pensadas politicamente, todas independente da gestão que está, independente do partido político. Mas elas precisam ter compromisso da política de serem concluídas. Seja para cultura, seja para educação. O que o município poderia contribuir? Não sozinho, o município poderia articular um consórcio cultural com outros municípios da região e essa tem sido a nossa proposta, dentro do Conselho, dentro da Central Cultural, para o movimento dos Artistas Independentes. Sozinho, nenhum município vai dar conta de gestar a obra do Centro Cultural, mas todos eles vão precisar dar sua parcela de contribuição, não para que a obra termine, mas para que possamos fazer a manutenção da obra”.

Outra proposta é em relação às parcerias público-privadas. Milene destaca que acha difícil que alguma empresa se comprometa com a finalização da obra, mas o apoio à proposta pode ser um incentivador. “Da mesma forma que o Governo Federal, Estadual e Municipal pode dar sua parcela de contribuição, as empresas privadas também podem aderir à causa”, explica.

Visita à obra: Pouco antes da realização da enquete pela prefeitura de Irati, a superintendente de Cultura do Governo do Estado, Luciana Casagrande, esteve visitando a obra em 2021 atendendo convite do prefeito Jorge Derbli e verificou a situação atual.

Em contato com a nossa reportagem, a superintendente explicou que continua à disposição para analisar um planejamento do uso do local. “Diante da constatação de que se trata de uma grande obra e de um alto investimento. Na época, nós nos colocamos a disposição para prestar uma consultoria técnica. Nossa sugestão inicial foi de que fosse feito um planejamento do uso do imóvel, adequando e ajustando a um cronograma financeiro. Nós nos mantemos à disposição para auxiliar nesse planejamento para que o prédio seja colocado em uso conforme o anseio da população”, disse.

Segundo o presidente do Conselho de Cultura de Irati, pessoas ligadas à Secretaria de Comunicação de Irati estavam articulando esse planejamento com a Superintendência, mas acabaram sendo desligados da pasta. Ele citou as recentes saídas da secretária de Comunicação, Fernanda Pereira Santos, e de Everton Hraber (Toco). “Nós, agora no Conselho, estamos pleiteando que o Poder Executivo indique novos representantes da Comunicação que a gente possa dar continuidade a esse diálogo também com o Estado”, conta Leonardo.
 
Local onde deveria ficar o palco do Centro Cultural. Foto: Rodrigo Zub

Artistas locais e regionais realizaram algumas atividades em frente à obra paralisada para demonstrar a importância da conclusão do espaço para o setor cultural. Foto: Rodrigo Zub