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Iratiense é um dos responsáveis pelo enredo da Grande Rio, campeã inédita do carnaval do RJ

Enredo produzido pelo iratiense Leonardo Augusto Bora e Gabriel Haddad trouxe o título inédito de campeão para a Grande Rio. Enredo recebeu nota máxima dos jurados/Karin Franco, com reportagem de Paulo Sava

Leonardo (segundo da esquerda para a direita) comemora título inédito do carnaval do Rio de Janeiro ao lado do seu companheiro na produção do enredo Gabriel Haddad. Os dois jovens carnavalescos possuem 35 e 33 anos, respectivamente. Foto: Fábio Rossi/Agência O Globo

A vitória inédita da Acadêmicos do Grande Rio no Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro tem a contribuição de um iratiense. O carnavalesco iratiense Leonardo Augusto Bora é o responsável pelo enredo que trouxe o título de campeã depois de 30 anos no Grupo Especial.

Junto com o parceiro Gabriel Haddad, Leonardo trouxe para a avenida o enredo “Fala, Majeté! Sete Chaves de Exu”, desmistificando a figura do Exu para a população brasileira.

A Grande Rio chegou a ser quatro vezes vice-campeã antes de conquistar o título inédito. Para Leonardo, fazer parte desta vitória é algo muito emocionante. “Eu acho que eu vou demorar ainda para entender para processar tudo isso que aconteceu. A dimensão que esse desfile ganhou, uma dimensão global que esse desfile ganhou, mas é muito forte você entender que é um dos artistas, juntamente com o Gabriel Haddad, meu companheiro de trabalho, responsável por essa primeira vitória de uma escola de samba. É algo muito forte. Muito importante”, disse Leonardo.


A conquista do campeonato também ocorre em um ano atípico, após o cancelamento do carnaval em 2021 e o adiamento em 2022, devido à pandemia do Covid-19. Neste ano, os desfiles aconteceram na semana passada, na sexta e sábado, dias 22 e 23. A volta ao Sambódromo no Rio de Janeiro foi o marco de um longo processo de trabalho para colocar a escola na avenida. “Foi um processo muito longo que desgastou toda a cadeia produtiva, os milhares de profissionais envolvidos na construção do desfile da escola de samba que ocorre ao longo do ano inteiro. Muita gente que não tem familiaridade com esse universo, acha que o desfile surge na avenida ali na hora. Na verdade, ele é pensado ao longo de um ano inteiro. Um carnaval termina e já começa outro”, conta o carnavalesco.

O enredo teve a pontuação máxima no quesito, recebendo nota 10 de todos os jurados da avenida. Leonardo conta que a elaboração do enredo veio a partir do desejo da escola de voltar às suas raízes. “Ele está costurado a uma linha de outros enredos da própria Grande Rio, que ela apresentou no começo da década de 90, quando ela se afirmou como escola de samba do Grupo Especial, cantando as religiões de matrizes africanas, a diversidade religiosa do País, a luta antirracista, o nosso panteão afro-ameríndio. Tudo isso estava no histórico da escola. Depois por uma série de motivos, ela seguiu por enredos patrocinados e deixou isso de lado. A minha chegada e do Gabriel na escola, em parte ocorreu por conta disso. Foi um pedido que a gente resgatasse essa memória da escola e apresenta-se narrativas de enredo que orgulhassem o povo caxiense, a comunidade da escola. Um trabalho voltado para base comunitária da escola”, explica.

O carnavalesco destaca que o enredo é fruto de muita pesquisa e um desejo de combater a intolerância religiosa. “Eu e Gabriel, ocupamos uma posição muito privilegiada, muito delicada. Nós somos artistas mediadores, a gente gosta de pensar assim. A gente fica fazendo pontes entre diferentes espaços. Felizmente, esse enredo ganhou a projeção que ganhou e se tornou um grande grito contra a intolerância religiosa, em defesa da diversidade de crenças, em defesa das religiões de matrizes africanas, em toda a sua pluralidade”, afirma o iratiense.

Leonardo mora há dez anos no Rio de Janeiro e desde o início teve ligação com o carnaval carioca. Ele começou na Mocidade Unida de Santa Marta, da quinta divisão, e depois seguiu para a Acadêmicos do Sossego. No grupo de acesso, ficou por dois anos na Acadêmicos do Cubango. Em 2020, foi segundo colocado do Grupo Especial com a Grande Rio e agora em 2022, conquistou o título inédito.

Mas sua história com o carnaval iniciou em Irati, com os carnavais de clube e de rua que aconteciam na cidade. “A minha trajetória enquanto amante do carnaval me leva a Irati. Com seis anos, eu já desenhava fantasias e carros alegóricos nos cadernos do colégio. Apaixonado, completamente arrebatado pelo espetáculo das escolas de samba. Via com meus pais pela TV, a gente participava muito ativamente do carnaval da cidade, na época havia um carnaval de rua e um carnaval de clube muito pulsante em Irati. E havia esse momento de parar para assistir as escolas de samba, para ouvir o disco dos sambas de enredo. E eu já comecei a desenhar, me imaginar enquanto artista, que gostaria de trabalhar com aquilo, que gostaria de imaginar esse espetáculo”, explica Leonardo.

Em 2012, Leonardo foi para o Rio de Janeiro para estudar e logo no início já se envolveu com o carnaval. Hoje ele é professor de literatura, no curso de Letras, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Os caminhos foram me levando a estabelecer contatos no Rio de Janeiro. Participei durante algum tempo de um concurso de internet chamado Carnaval Virtual. As minhas pesquisas na faculdade, na graduação, no mestrado e doutorado sempre tocam em carnaval. É sempre o grande tema, as narrativas das escolas de samba. E eu fico nesse equilíbrio entre a teoria, entre a pesquisa, entre a minha atuação como professor e a prática, atuação enquanto carnavalesco, enquanto artista que assina o projeto visual, a plástica e a narrativa de enredo de uma escola de samba”, relata Leonardo.

Conciliar as funções de professor e carnavalesco é algo desafiador, mas Leonardo destaca que a paixão pelo carnaval é que o alimenta. “O que me anima é que ambas as atividades lidam com um público variado, plurais, diversos, desafiam o olhar, desafiam o pensamento e é isso que me anima, que me mantém sempre empolgado. Eu posso estar muito cansado, eu entro no barracão de escola de samba, parece que é injetado uma energia. Mesma coisa ocorre em sala de aula, com a troca com os estudantes. E como eu disse, eu não faço muita divisão entre as coisas. Para mim, a atuação em sala de aula é tão criativa quanto a atuação no barracão. O barracão também é sala de aula. Transitando por esses espaços, a gente vai tentando construir pontes e juntar tudo numa coisa só”, conta.

Para quem perdeu o desfile no fim de semana, o Desfile das Campeãs terá transmissão neste sábado (30), a partir das 21h15, pelo canal Multishow e portal G1.

Direção da Grande Rio renovou contrato com Gabriel Haddad e Leonardo Bora para o Carnaval de 2023. Foto: Divulgação