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Atleta de Imbituva relata cenário de guerra em cidade ucraniana tomada pelos russos

Claudinho Garcia, que atua no futsal ucraniano, contou que exército russo invadiu a cidade de Kherson. Lojas foram saqueadas, mercados deixaram de funcionar e moradores não saem de casa por segurança/Paulo Henrique Sava

Claudinho Garcia, que atua no futsal ucraniano, falou sobre o cenário da guerra contra os russos na cidade de Kherson. Foto: Arquivo Pessoal

O exército russo invadiu e tomou o controle da cidade de Kherson, uma das maiores da Ucrânia, na última terça-feira, 01. Lojas foram saqueadas, mercados deixaram de funcionar e moradores não saem de casa por segurança, conforme relatou à reportagem da Najuá o jogador de futsal Claudinho Garcia, de 31 anos. Ele é natural de Turvo, mas vive desde os 12 anos de idade e tem familiares em Imbituva e está na cidade ucraniana há dois anos. Ele reside lá juntamente com outros dois atletas brasileiros, um de Pernambuco e outro de Santa Catarina, e uma tradutora de ucraniano.

“Nós estamos em um apartamento, há tanques e soldados por toda parte na cidade, muitas lojas estão sendo saqueadas pelos próprios moradores da cidade, os mercados não funcionam. Nós não saímos na rua para manter a segurança. Durante o dia, ouvimos vários disparos. Ao amanhecer ontem, durante a invasão, ouvimos bombas e disparos de armas. Alguns prédios principais da cidade foram atacados e vários cidadãos ucranianos morreram devido aos ataques. Eles acabaram tentando defender e impedir a entrada dos soldados com coquetéis molotov, mas acabaram sendo mortos. Hoje, estamos em uma situação bem crítica, pois quem está controlando a cidade é o exército russo”, relatou.

A invasão da cidade, que tem pouco mais de 250 mil habitantes, é considerada uma das maiores vitórias dos russos na guerra contra a Ucrânia, deflagrada no último dia 25 de fevereiro. Entre civis e militares, acredita-se que 300 ucranianos tenham morrido nesta batalha. Claudinho contou que, apesar de toda a angústia de não poder sair e da presença de tanques do exército russo próximos ao seu apartamento, o centro da cidade está relativamente tranquilo, situação confirmada por ele à nossa reportagem na manhã de hoje, 03.

“O centro da cidade está tranquilo, apesar de o exército russo ter invadido e tomado conta de toda a cidade. Ficamos só em casa para não ter perigo de acontecer nada, estamos os quatro juntos, sempre um apoiando o outro, motivando e mantendo a autoestima, confiantes de que sairemos daqui”, frisou.

Um dos principais shoppings da cidade foi destruído por um incêndio provocado pelos invasores durante um dos primeiros ataques. Os bombeiros estiveram no local, mas não conseguiram apagar o fogo. Claudinho descreveu o cenário após os saques e a destruição em Kherson.

“Muitos saqueadores estão invadindo e roubando produtos de lojas e mercados que estão trabalhando. Até os próprios soldados russos estão fazendo isso, invadindo lojas de eletrodomésticos e eletroeletrônicos e mercados, até porque o exército ucraniano acabou destruindo os comboios de abastecimento das tropas russas, então eles estão pegando suprimentos aqui nos mercados. Alguns prédios principais, como o da Polícia, de uma outra região da cidade, que foi destruído. A cidade está um caos. O exército não está atacando civis, mas as pessoas atacam e os soldados simplesmente revidam. O que está causando bastante destruição são as pessoas que se aproveitam desta situação para cometer vandalismo, e é perigoso estar na rua. Ficar angustiado é normal neste caso, pois estamos no meio de uma guerra”, frisou.

A família de Claudinho permaneceu no Brasil. “Todos os dias eu converso com minha mãe. Já com os meus filhos eu não converso todos os dias, pois, devido à situação, eu acho que não aguentaria falar com eles sem chorar e eles poderiam se sentir mal. Então, eu evito, mando mensagens, mas tento manter todos os meus parentes calmos, tranquilos e confiantes de que tudo vai correr bem aqui. Graças a Deus aqui está tendo internet e meios de comunicação, e isto nos tranquiliza muito”, desabafou.


Nesta quarta-feira, 02, o Itamaraty divulgou que o governo brasileiro irá intensificar os esforços para a retirada dos brasileiros que estão na área do conflito. Um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) será enviado para o local. Claudinho diz que pretende voltar ao Brasil assim que possível.

“Pretendo voltar ao Brasil assim que possível, quando conseguirmos uma maneira de chegar até uma fronteira. Quero ir para o Brasil para ver minha mãe, meus filhos e minha família. Depois, vou pensar para qual time irei, pois na Europa estamos no meio da temporada e acredito que não vou encontrar outro time por aqui, então provavelmente vou terminar a temporada no Brasil. Vou ver isto depois que sair daqui com saúde e, se Deus quiser, com meus colegas. Depois, vou decidir meu futuro”, pontuou o atleta.

Claudinho pediu que todos façam o que puderem pelas pessoas que amam. “Então, tudo o que você puder fazer pelas pessoas que estão contigo sempre, faça e não deixe para amanhã. Quando soubemos da notícia de que começou a guerra, estávamos voltando de uma viagem. Os nossos colegas ucranianos ficaram sabendo dos ataques nas cidades e muitos deles tinham familiares lá. Você olhar para um amigo seu e ver que ele sabe que não pode fazer nada para ajudar um familiar, um parente, é angustiante, é se sentir inútil. Nunca espere acontecer alguma coisa ruim para você dizer e fazer para teus amigos e familiares o que é possível. Faça o que for possível, o que tem que falar, que você ama, e não deixe para a amanhã. Nós temos a mania de deixar tudo para amanhã, e às vezes ele nunca chega”, finalizou.

Claudinho atua como ala no MFK Prodexim, de Kherson, há dois anos. No Brasil, ele começou no futsal em Imbituva, depois foi campeão da Série Prata do Campeonato Paranaense pelo Ivaí Futsal em 2012, quando o time foi comandado por André Demczuk, o Dedé, atual secretário de Esportes e Lazer de Irati. Claudinho atuou também no Keima Futsal, de Ponta Grossa, no Intelli Futsal, de Santo André - SP e no Cascavel Futsal.