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Projeto contará histórias do bairro Engenheiro Gutierrez

Livro será escrito com histórias dos moradores e peculiaridades da comunidade/Paulo Henrique Sava
Projeto de resgate histórico da comunidade de Engenheiro Gutierrez será elaborado pela Associação de Moradores do bairro. Foto: Reprodução Facebook

A Associação de Moradores do bairro Engenheiro Gutierrez está organizando um projeto de resgate histórico da comunidade. Um livro será escrito com histórias dos moradores e peculiaridades da comunidade. Os trabalhos vêm sendo realizados desde dezembro de 2018, quando o projeto foi aprovado juntamente com o Plano Diretor do bairro, que contava com os projetos da praça da comunidade, o projeto “Ameguinhos”, que envolve crianças e apresenta missões educativas que devem ser realizadas por elas, e várias outras ideias de melhorias para a comunidade, segundo a presidente da Associação, Joelma Fedalto. 

“Nós aprovamos isto em dezembro de 2018, e o projeto de resgate histórico foi elaborado em 2019. Não pudemos dar início às entrevistas por conta da pandemia. No entanto, este ano estamos dispostos a iniciar as entrevistas. Hoje temos uma equipe de voluntários que disseram seu sim para ajudar o projeto e fazer as entrevistas”, frisou.

O escritor Maygon Molinari, coordenador do projeto, ressaltou que a ideia é tentar fazer alguns registros do passado e do presente do bairro. “Quando compreendemos um pouco isto, compreendemos a dinâmica do lugar onde vivemos. Vamos tentar contar histórias de cunho universal, como a importância, por exemplo, da Unicentro no nosso bairro, que está oficialmente registrada como em Engenheiro Gutierrez, e contar fatos cotidianos da vida das pessoas. Eu me lembro que, quando eu era piá e fui catar pinhão no mato, chegou um senhor que eu vou mencionar no livro, e começou a conversar e contar histórias do bairro”, pontuou.

Uma das histórias a ser contada no livro será a de um trem que estava vindo de São Paulo e chegaria à antiga estação de Engenheiro Gutierrez com uma carga “diferente”. “Todo mundo foi para a plataforma da estação, foi aquele movimento, e o que foi a carga? Era uma carga de papel higiênico, que inclusive nem ia parar aqui, pois estava indo para o Rio Grande do Sul. Aquilo foi uma notícia; hoje, parece que não conseguimos mensurar a importância de um fato como este, mas vão existir inúmeros que vão aparecendo e queremos fazer um registro porque, às vezes as pessoas pensam que estas coisas não importam, mas elas têm uma importância não somente pessoal, mas era uma questão do mundo, era uma coisa que estava acontecendo, uma revolução, como inúmeras outras que foram acontecendo. A ideia é que este livro consiga, ao máximo, ser fiel a este tipo de conteúdo”, frisou.

O principal objetivo, segundo Maygon, é de resguardar a história da comunidade. “Sabemos da importância da história, e vemos na atualidade que, quando não conhecemos a história, repetimos os mesmos erros, seja a nível micro, dentro de uma família, no mundo. Quando não conhecemos um pouco do que aconteceu, por muitas vezes descaso e até um certo desprezo em algumas situações, sem generalizar, acontece que replicamos os mesmos erros e cometemos bobagens e atrocidades. Então, a história é fundamental”, comentou.

O livro trará recortes históricos sobre o bairro, para que a comunidade tenha consciência de que a história ainda está sendo construída, segundo Maygon. “Um dos objetivos é chegar a uma conclusão incompleta. Pode parecer um paradoxo, mas a ideia é justamente mostrar que a história está se fazendo, as pessoas estão construindo, destruindo e reconstruindo o bairro, como em qualquer lugar. Eu gosto muito de viver no meu bairro, e é um trabalho para ser feito justamente com carinho, é voluntário e não estamos envolvidos com intenções de ganho”, contou.

O escritor também falou sobre as expectativas dos moradores em relação ao projeto. “Eu acho que o pessoal espera muita coisa do projeto. Eu espero que fique este registro, que consigamos trazer uma certa imagem do que aconteceu e do quanto isto é importante para nós. Quando você canta sua vila, Tolstói já dizia que você se torna universal. Não é aquela postura um pouco talvez altiva ou arrogante de dizer que o meu lugar é melhor, os outros não prestam, mas cada comunidade tem sua peculiaridade. Algumas têm suas histórias contadas, o que é uma pena, pois seria importante que todas as comunidades tivessem suas histórias contadas”, comentou Maygon.

Os envolvidos no trabalho estão vinculados afetivamente com o bairro, de acordo com Maygon. “Você não vai fazer um trabalho destes apenas de forma técnica, recolhendo as entrevistas, entrevistar um morador do bairro que está com 85 anos e vai ser uma coisa apenas técnica. Existe todo um envolvimento emocional, de modo que, ao registrar isto, é como se estivéssemos fazendo um registro nosso. Eu não vivi a década de 40, mas tudo isto contribuiu de alguma forma para eu ser quem sou”, pontuou.

O bairro de Engenheiro Gutierrez já teve farmácia, uma “delegacia”, o posto dos Correios, além do Seminário Santa Maria (que hoje abriga a Unicentro), o Colégio Sagrado Coração de Jesus (atual prédio do Centro Universitário Campo Real), a Igreja Cristo Rei e uma Igreja Evangélica que está se instalando na comunidade. Todas estas instituições fazem parte da história do bairro.

“Esta é a nossa história, o nosso movimento. É preciso que nos orgulhemos de onde estamos, pois muitas vezes, quando renegamos as origens, não temos destino. Aquele que não sabe ter passado, não terá futuro. Não adianta você dar as costas porque não vai chegar a lugar nenhum negando o passado. O que eu espero é ser parte desta “roda de moinho” e contribuir para que ela continue girando. Esta é a minha pequena contribuição”, comentou.

O livro ainda não tem previsão de ser lançado, uma vez que é preciso entrar em contato com uma editora que aceite fazer o trabalho. Maygon deve utilizar sua experiência como escritor para alavancar o trabalho comunitário. Ele acredita que a etapa mais trabalhosa será a coleta das entrevistas, que faz parte de um trabalho “exigente”. “Se fosse tão simples assim, teríamos muito mais registros. A ideia é, neste momento, não nos preocuparmos com o lançamento e focarmos mais no movimento das entrevistas”, frisou.


Redes sociais - A Associação também criou um grupo nas redes sociais contendo imagens e um pouco da história do bairro. Quem tiver material, quiser tirar fotos, entrevistar ou ser entrevistado, também poderá contar um pouco da sua experiência com Engenheiro Gutierrez e enviar o material através do grupo, conforme Maygon.

“É claro que é um trabalho bem sério, exige comprometimento. Se a pessoa fizer uma entrevista, já nos ajuda. Este material será enviado para mim. Nós não vamos, infelizmente, transcrever as entrevistas, não é este trabalho. Vamos retirar trechos e transformar em uma narrativa. Eu tenho falado que quero que o livro fique agradável. Nada contra a academia, mas não queremos que fique um livro acadêmico, apenas técnico, mas sim que ele flua, que você deixe na tua estante e leia um pouco. Depois, você vai na vizinha e uma conta para a outra”, frisou.

Personalidades - Personalidades como a escritora Cecília Meirelles, o presidente Getúlio Vargas e o cientista Israel White passaram por Gutierrez. “Não tem nem como encerrar a entrevista, no sentido de dar um acabamento porque ela tem a mesma ideia do livro. Que ela fique em aberto, quem tiver interesse está convidado a participar. Todos os envolvidos estão de parabéns”, finalizou.