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Campanha Janeiro Branco alerta para atenção com a saúde mental

Em entrevista à Najuá, o médico psiquiatra Lucas Batistela explicou sobre como prevenir algumas doenças e o medo de ser contaminado com a Covid-19/Karin Franco, com reportagem de Herivelton Lourenço

Doutor Lucas Batistela falou sobre a Campanha Janeiro Branco durante entrevista à Najuá. Foto: Facebook/Reprodução

Surgida em 2014, a campanha Janeiro Branco traz a proposta para as pessoas cuidarem da saúde mental neste início do ano. “A saúde mental, como todas as outras saúdes, física, espiritual, é uma coisa importante no nosso organismo. Sempre digo aos pacientes, se a nossa mente não está bem, nada vai estar bem”, contou o médico psiquiatra Lucas Batistela durante entrevista à Najuá.

Uma das principais razões para a atenção à saúde mental, é que muitas pessoas foram atingidas durante a pandemia, sendo que a ansiedade é a principal doença decorrente neste período. No Brasil, 9,3% da população brasileira sofre com ansiedade.

O medo de ser contaminado pela Covid-19 tem levado muitas pessoas ao consultório. O psiquiatra conta que de cada oito pacientes, seis são pessoas que possuem esse medo.


Desde o fim de dezembro, por exemplo, o psiquiatra conta que tem atendido muitos adolescentes que não estão conseguindo voltar às aulas por medo de serem contaminados. “Devido ao isolamento, o pessoal ficou muito trancado em casa. Esse medo todo. Perdemos muito também a nossa habilidade social. As pessoas hoje em dia não estão conversando mais umas com as outras. Muito nas redes sociais, na internet. Então, quando tiveram que voltar para as aulas foi impressionante o número de adolescentes que não conseguiram, que tiveram crise de pânico, ficaram com medo”, conta Lucas. No caso dos adolescentes, o psiquiatra afirma que tem trabalhado para que eles voltem às aulas e à rotina normal.

O médico explica que as notícias sobre a Covid-19 e perdas que as pessoas passaram nos últimos dois anos pioraram para as pessoas que tem algum episódio de ansiedade. “Pessoas ansiosas naturalmente já tem preocupações excessivas. Ela já sofre antecipadamente por coisas que nem vão acontecer”, explica.

O psiquiatra destaca que não há idade para que a ansiedade apareça. Há pacientes de cinco até 94 anos. Contudo, há um grupo que acaba mais atingido que são as pessoas de 15 a 30 anos. “Essa fase é uma fase de muita cobrança. O adolescente na escola tem muitas expectativas futuras, vai passar na faculdade, a cobrança dos pais, tem que passar no vestibular, tem que trabalhar. Ele gera uma expectativa muito grande. O adulto jovem também que está começando a vida, que tem aquela ambição, me formei agora tem que ganhar dinheiro, eu tenho que ter a minha independência. E às vezes, as coisas início não é como ele imagina. Isso gera muita expectativa e gera muita ansiedade”, conta Lucas.

A depressão também é outra doença que tem sido motivo de preocupação, especialmente nesta época. O psiquiatra destaca que há diferenças entre as pessoas passarem por momentos difíceis e ter depressão. “Muitas pessoas têm problemas sérios, estão passando por momentos difíceis, mas elas ainda não estão depressivas. A depressão é aquele pensamento triste, aquelas coisas que estão tirando a energia dela e já mais de duas, três semanas, a pessoa não consegue desfocar os pensamentos. Ela acaba tendo prejuízos sociais, prejuízos no trabalho, não quer sair, não quer se envolver. Ela vai se fechando ali”, disse.

Contudo, a mente consegue dar sinais antes que uma depressão seja diagnosticada. “Tem um negócio que você gosta muito de fazer. Eu gosto muito de andar de bicicleta. Eu amo andar de bicicleta, uma coisa que me faz bem, mas aí chega aquele dia de dar um passeio com o pessoal, me dá aquela preguiça, não quero ir, vou deixando de andar. Meu trabalho que eu já vinha empenhado, eu já vou levando meio que nas coxas, sem a gente notar especificamente, mas aquelas coisas que faz bem para a gente, vamos cada vez se afastando mais”, explicou.

Se a pessoa sentir sinais como não querer conversar, se isolar, chorar sem motivos, pode ter risco de desenvolver uma depressão. Mas há tratamento para depressão, que podem incluir ações maiores do que somente a medicação. “O pessoal usa muito a medicação para o tratamento principal, com quadro depressivo, por exemplo. Mas a medicação é o último recurso, a última barreira para tentarmos eliminar essa doença de você. Antes disso, tem uma série de fatores que você pode estar fazendo para não precisar tomar medicação. E por mais que você já esteja tomando a medicação, também só a medicação não vai resolver o seu problema”, conta.

Outras ações podem diminuir o uso da medicação. “Hoje em dia os tratamentos são muito diferentes. Eu, particularmente, eu procuro trabalhar com mínimo de medicação possível. Eu gosto bastante de trabalhar com meditação, com Reiki, com hipnose, com respirações, com energização, com as formas mais naturais, praticamente não tenho equipe envolvida. Eu gosto bastante de incentivar a mudar o estilo de vida, atividade física”, disse Lucas.

O psiquiatra alerta que não se pode esperar para procurar ajuda. Se a pessoa ficar sem tratamento e ajuda, o risco é que algo mais grave, como o suicídio, possa acontecer. O médico explica que esses casos podem ser prevenidos se as pessoas prestarem atenção aos pequenos sinais. “Um sinal muito importante que a pessoa que vai cometer o ato suicida, na grande maioria dos casos, que ela apresenta, é essa mudança de rotina, essa mudança de humor. Aquela pessoa que você conhece que ela era muito alegre. ‘Era uma pessoa alegre, de boa’. De repente ela dá uma rebaixada, uma mudança muito grande, pode ter certeza, alguma coisa está acontecendo com ela. Esteja atento a este tipo de pessoa”, conta.

O psiquiatra ainda alerta que o contrário pode acontecer. Pessoas que são mais tristes e deprimidas, quando passam por uma mudança brusca de humor, ficando mais alegres, sem muita razão, podem também ter sinais de suicídio. “Às vezes, essa pessoa que está passando por aquele sofrimento tão grande, ela já se decidiu. ‘Vou cometer um suicídio’. Ela já se organizou. Já comprou o material que ela precisa. Já está tudo certo para ela cometer este ato. Ela já bem resolvida em questão a isso. Isso traz nos últimos dias dela uma sensação, por incrível que pareça e até estranho, mas de bem-estar, porque ela sabe [acha] que a dor dela vai acabar”, explica.

Por isso, Lucas destaca que pessoas próximas precisam estar atentas e ajudar quando for possível. “Você tem um amigo, achou alguma coisa estranha, está com uma atitude diferente? Chega nele e fala: ‘Pô, cara, gosto muito de você, mas estou percebendo que você não está bem’. Vá aos poucos, ele vai dando oportunidade para ele se abrir para você porque hoje em dia a gente não conversa mais com as pessoas em volta”, conta.

A procura por um profissional também pode ser uma saída. “Eu estou com aquele problema, aquela coisa que me incomoda. Mas eu fico meio sem saída, eu não tenho para quem falar. Por isso a importância de você estar procurando um psicólogo, estar procurando um médico de saúde mental, para você conseguir estar colocando essas coisas para fora”, disse.

Quem não possui condições financeiras, pode procurar atendimento na rede pública, que também possui um setor para saúde mental. “Você que, às vezes, não pode procurar um tratamento particular, nem que seja um tratamento pelo SUS, mas não deixe de tratar”, conta o psiquiatra.

Lucas destaca que a atenção com a saúde mental é como qualquer outro aspecto da saúde física. “As doenças psicológicas são doenças como todas as outras. Ninguém tem culpa de estar ansioso, ser depressivo e de ter alguma peculiaridade psicológica. Você tem culpa, eu diria, se você não procurar ajuda. Se você não procurar se tratar. Quando você ver que tem um problema e você vai deixando as coisas rolar, a tendência é só piorar”, explica.

O psiquiatra destaca que vemos cada vez mais problemas parecidos porque o cotidiano com muito estresse ajuda a contribuir com o aparecimento dessas doenças. “Porque a nossa vida está muito corrida. Todo mundo é cheio de problema, essa inflação não para, as contas aumentam, o nosso dinheiro não rende nada. Isso força com que a pessoa esteja cada vez mais envolvida com coisas que ela realmente tem que fazer, que ela precisa e ela quase nunca faz coisas que ela realmente gostaria de fazer”, disse.

Além da saúde mental, a saúde física também é atingida por causa do estresse. “O nível de estresse alto influencia muito no cortisol, influencia muito na posição da serotonina, influencia muito na questão da imunidade da pessoa. A pessoa que está passando para o nível de estresse alto, fica inclusive, muito mais suscetível a pegar o coronavírus”, relata.

Para reverter isso, o psiquiatra destaca a importância do exercício físico, das atividades fora de casa e o convívio social para prevenir situações como essas. “A atividade física, por exemplo, é uma atividade que libera uma infinidade de neurotransmissores do prazer, do bem-estar, da satisfação. Só das pessoas estar praticando um esporte, estar fazendo uma caminhada, indo para academia. Muda muito psicológico, muda muito a autoestima, melhora muito a qualidade sono”, disse.

O consultório do médico psiquiatra Lucas Batistela está localizado na rua Ezequiel Andrade Gomes, número 93, em Irati. O telefone para contato é (42) 9-9933-7608.