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Zeca Araújo, criador do “Nhô Pacífico”, tem trajetória contada em livro

José Maria Gracia Araújo, conhecido como Zeca Araújo, teve sua história contada no “O interior de todo artista”, escrito por Mario Lopes/Karin Franco, com reportagem de Juarez Oliveira
Historiador José Maria Gracia Araújo, o "Zeca Araújo", criador do personagem Nhô Pacífico, teve a história contada no livro "O interior de todo artista". Foto: Juarez Oliveira.

O historiador José Maria Gracia Araújo, conhecido como Zeca Araújo, é mais um dos artistas iratienses que aparece no livro “O interior de todo artista”, escrito por Mario Lopes. O livro conta a história e trajetória de artistas iratienses e os seus desafios de produzir arte no interior do Paraná.

Grande conhecedor da história de Irati, Zeca Araújo é criador do personagem “Nhô Pacífico”, em referência a Pacífico Borges, um dos donos das terras onde foi fundada a vila de Covalzinho em 1899, que passou a se chamar Irati e foi emancipada em 1907. O personagem ajuda a levar a história de Irati para diversos estudantes do município.

Em entrevista à Rádio Najuá, ele relembrou momentos da infância e contou algumas passagens que foram incluídas no livro. Nascido em 1 de dezembro de 1940, a história de Zeca Araújo se intercala com a história de Irati. “Nasci em uma casa de madeira que é onde hoje está exatamente a 4ª Regional, ali na Munhoz da Rocha. Era a casa do meu pai. Ele tinha uma alfaiataria e o terreno ia quase até o meio da quadra. Vivia a minha vida, a minha infância ali até os quatro, cinco anos. Infelizmente, minha mãe, como consta no livro, que se chamou Iratila, ela faleceu eu tinha seis meses de idade. Meu pai com quatro filhos, uma já tinha falecido e minha mãe faleceu provavelmente por motivação por falecimento do meu irmão, uns dois, três anos antes de eu nascer. Ela se desgostou muito e faleceu”, disse.

Depois dessa perda, Zeca foi morar com uma tia. “Com tia Mariquinha Anciutti Grácia, esposa de tio Trajano Grácia”, conta. Lá viveu até uns sete anos, quando voltou a morar com o pai. “Depois quando meu pai se casou novamente, eu voltei a morar com ele, agora já ali onde é hoje a Tim, na Munhoz da Rocha, passando a Farmácia Trajano. Ali era a Coletoria Federal do Paraná. Então, ali foi a minha infância mais derradeira. Em 48, ele construiu a casa onde hoje a Claudete Basso tem seu ateliê, ali na rua Coronel Grácia, que é uma homenagem a meu avô. Ali que passei a minha infância com toda a molecada da região”, relata.

Um dos períodos lembrados por ele foi quando foi o primeiro aluno não seminarista do Colégio São Vicente. “Tia Mariquinha, muito religiosa, me pôs lá para ver se o padre Lima, na época, me conduzia para o celibato. Para ser padre. Um dia ele chamou a tia Mariquinha: ‘Dona Mariquinha, venha cá’. Ela que me contou. Ele disse: ‘Dona Mariquinha, vou-lhe dizer uma coisa: José Maria não dá pra padre”, conta.

No entanto, a vivência neste período ainda está em sua memória. “Eu fiquei lá junto com uma série de seminaristas, que ainda estava aqui, que o resto foi transferido para o Carás. Lá para o Carás, lá em Santa Catarina. E eu fui o primeiro aluno que não era seminarista do São Vicente, em 48 “, disse.


O dia a dia no Colégio São Vicente ainda é relembrado por Zeca Araújo, que se recorda sobre os passatempos dos estudantes. “No fundo do São Vicente tinha um tanque. Um tanque represado por pedras. Chegava a hora de tomar banho, toda a criançada, os alunos punham uma boia, uma câmera de ar no pescoço e íamos todos em fila para nadar no tanque do São Vicente”, conta.

Os estudantes também aprontavam e Araújo se recorda de algumas estripulias feitas na juventude. “Nós tínhamos uma sala de aula que tinha um alçapão que dava para um porão, então tinha o padre Motta – querido padre Motta. Ele dava Latim, mas era uma aula que ninguém gostava. Quando saia o professor antes do padre Motta, nós saíamos pelo alçapão e ia gazear aula na cachoeirinha ali da frente da Matriz. Íamos gazear aula, jogar truco. Quando terminava, depois quando dava a hora que nós precisávamos, nós voltávamos para aula”, relata.

Ele ainda destaca que na época, o Colégio São Vicente recebia alunos de várias cidades do Paraná. “O São Vicente era o polo educacional de todo o Paraná. Vinha gente de Guarapuava –quase todas as grandes personalidades de ontem e hoje de Guarapuava estudaram no São Vicente -, de Ponta Grossa, de Curitiba. Ali reuniu a nata de paranaenses para o São Vicente”, conta.

Foi no Colégio São Vicente que os estudantes participaram de coletas de objetos pré-históricos. Os materiais foram coletados em uma pedreira acima do Colégio São Vicente, logo após por onde hoje passa a rodovia. “Lá tinha uma fonte de fosseis de animais pré-históricos que era uma fábula. Nós coletávamos a flor da terra, foi criado uma coleção ali, só que quando mudou para o Carás, os padres levaram tudo para lá. Eu já me propus a trazer de volta, mas até agora não tivemos um incentivo de fazer”, disse.

Depois de formado no Colégio São Vicente, Zeca Araújo se mudou para Guarapuava, onde se casou, e um tempo depois foi para Curitiba. Ainda em Guarapuava, ele também prestou o seu tempo no serviço militar. “Da minha passagem pelo Exército, que era a Cavalaria, nós fizemos uma marcha a cavalo de Guarapuava a Londrina. Ida e volta 1200 quilômetros”, conta.

Foram 30 dias de cavalgada. “15 para ir. Nós saímos em 15 de agosto, desfilamos em 7 de Setembro em Londrina. Londrina ainda era um vilarejo, tinha um prédio. Desfilamos lá no 7 de Setembro e voltamos todos por caminhos diferentes. Cinquenta anos depois eu fiz esse mesmo trajeto de moto. Peguei o mapa que eu tinha, fui em cada localidade que nós acampamos, em cada parada que fizemos, fui de moto”, relata.

É em Guarapuava também que uma ideia surgiu e foi definitiva na arte produzida por seu pai, Dario Araújo. Conhecido como Primo Araújo, ele foi um pintor e escultor com obras reconhecidas em Irati e em outros locais, sendo que uma dessas obras são esculturas em isopor. Essas obras começaram após uma necessidade que Zeca Araújo possuía.

Na época, Zeca começou a trabalhar com um produto que ainda era novo no mercado. “Era mais ou menos os anos de 1958, 1960, nesse período que apareceu o isopor aqui no Paraná, talvez até no Brasil. O isopor não era um produto conhecido. Eu tomei conhecimento em Guarapuava, eu morava lá, e comecei a tentar fazer decoração de vitrines. Eu já tinha um pouco de conhecimento artístico, comecei a fazer enfeites para vitrines, letreiros, mas tinha dificuldade no corte do isopor. Naquele tempo se cortava quente, com um ferrinho quente, ia passando, mas não tinha muito controle”, disse.

Sem conseguir manusear corretamente, Zeca Araújo foi pedir ajuda ao seu pai. “Eu peguei um pedaço de isopor e trouxe para meu pai aqui em Irati. E pedi: ‘Pai, isso aqui é um material assim e assim que surgiu agora, eu quero que o senhor bole alguma coisa para cortar’. Ele tinha uma oficina, além do trabalho de coletor federal, tinha uma oficina de rádio e ele inventou um ferro com a ponta quente, mas não deu certo. E ele gostou tanto que começou a inventar e criou o sistema de corte a frio. Umas faquinhas que depois a população inteira de Irati doava facas antigas para ele e ele fazia faca de todo jeitinho”, conta.

As novas esculturas foram um sucesso. “Foi cortando, cortando e criou um trabalho que decorava clubes, decorava carnaval, de corava desfiles cívicos, tudo com aqueles trabalhos em isopor. E evoluiu para quadros. E chegou a um nível tal que até um bispo passando por Irati comprou uma Santa Ceia dele, que é um dos quadros mais importantes que ele fez em quantidade, e levou para o papa. Tem uma Santa Ceia provavelmente, se não estragou ainda, lá no Vaticano. No aeroporto Afonso Pena, tinha um painel com o trabalho dele. O Glinskão quando tinha para baixo do trilho, tinha um painel em cima do lugar que era o açougue todo feito em isopor”, explica.

O sucesso do pai no isopor foi o responsável para Zeca Araújo concentrar seu trabalho com a madeira. “Eu disse: ‘Nunca vou chegar a esse nível de trabalho que ele faz’. Então não vou continuar fazendo e vou passar para madeira. Comecei a esculpir em madeira, comecei a trabalhar esculturas em madeira e graças a Deus acredito que me sai razoavelmente bem, tenho trabalhos muito bons feitos em madeira”, disse.

Atualmente, ele atua na Secretaria de Cultura, Patrimônio Histórico e Legado Étnico ajudando na preservação do legado de seu pai, sendo responsável por cuidar de uma sala na Casa da Cultura destinada às obras do Primo Araújo.

Além desse papel na história de seu pai, Zeca Araújo também tem criado um legado em Irati com obras importantes. “Dentro da cultura em Irati, eu tenho diversas obras que pouca gente talvez reconheça. Monumento à Bíblia, em frente à São Miguel. Ali o Dagoberto Waydzik criou um projeto e disse: ‘Vamos fazer isso aqui’. Eu estava recém trabalhando com fibra de vidro. Peguei um grupo de amigos e funcionários da prefeitura e construímos o monumento à Bíblia, que está lá. Na frente da São Miguel, tinha um São Miguel num pedestal que também obra minha, no trabalho de cultura”, explica.

Suas atividades culturais ainda impactaram na ajuda à preservação da memória local. “Tenho na área cultural muitas atividades. Como procurei há alguns anos atrás, quando o Requião era governador, lá no Museu do Olho tinha uma festividade e doei para a Maristela Requião e pedi que desse atenção à Casa do Iapar. E felizmente, em parte, vieram e arrumaram o telhado. Depois, o Requião já estava saindo e ninguém mais veio e está lá. A minha briga pela casa é intensa. Eu quero ver aquela casa reformada. Quando criança eu visitava lá com meu pai, o Alberico Xavier de Miranda, nós íamos lá porque ele era amigo do Alberico”, conta.

A reforma da praça do skate e da igreja do Taquari, com pinturas de um artista de Rio Azul, tem sua ajuda. “A reforma da igreja do Taquari, de Gonçalves Junior. Duas igrejinhas de madeira que ainda estão lá, reformadas. Era para ser demolidas e serem feitas em alvenaria. Tem pinturas por dentro maravilhosas. Ia ser tudo perdido. Eu briguei, briguei, fiz o projeto da reforma, tenho todas as fotos das reformas e estão lá agora essas igrejas mostrando toda a exuberância da arquitetura de madeira e as pinturas daquela época”, relembra.

Toda a história de Irati também é preservada por Zeca Araújo no programa que apresenta na Rádio Najuá. Com mais de 500 episódios, o programa relembra histórias locais e teve que ser interrompido por causa da pandemia. Tendo apenas reprises no último ano, o programa deve voltar a ser produzido e trazer episódios inéditos. “Isso me deu assim uma alegria extrema porque não falta história. Material não falta, tem coisas de Irati, não quero ufanizar muito, mas é uma cidade que provavelmente no interior do Paraná tenha um conteúdo mais completo. Aqui temos o 3º Rotary Club do Paraná, nós temos a luz elétrica que a primeira talvez do interior do Paraná é daqui de Irati, o telefone começou por Irati a telefonia no interior do Paraná. A colônia de Gonçalves Junior, a imigração, é uma história maravilhosa. Então, história não faltou para redigir e levar ao ar esses 500, 600 programas”, conta.

Sobre ter sua história contada no livro, Zeca Araújo destaca que foi uma honra. “Involuntariamente, mas com muita satisfação, agora eu vejo, eu fui fornecendo dados, e a pessoa que escreveu, foi muito hábil em conseguir outras informações assim por volta daquilo que eu dizia e ele foi conseguindo. E me deu a honra e satisfação de ser capa do livro, de ser o primeiro que aparece nas entrevistas ali e de ter uma quantidade de texto que acredito que é uma das mais completas que tem ali. Eu fico honradíssimo”, disse.

Essa não é a primeira participação dele em uma publicação. Zeca Araújo relembrou outros dois momentos. “Eu já tenho participação em mais dois ou três livros. Um de Ruth Los-Kiewiet que a colônia Witmarsum, quando ia fazer 100 anos, em 2011, que foram três famílias daqui de Irati que saíram e fundaram Carambeí. Saíram de Gonçalves Junior e fundaram Carambeí. Então, eles deixaram muita história aqui. E meu avô que era o que recepciona os imigrantes em Gonçalves Junior. Ele tinha o armazém, recepcionava, oferecia as mercadorias que precisavam, pagava uma diária para limparem os terrenos e recebia do Governo Federal para atender os imigrantes. Os primeiros que chegaram, os holandeses, passaram pela mão dele. Eles vieram, me procuraram, escreveram um livro maravilhoso dos 100 anos de Carambeí e eu tenho duas páginas nesse livro”, conta.

A outra participação é em um livro que relata sobre casas de madeira. “O Nego Miranda também, parente do pessoal da Fazenda Florestal, tem um livro Paraná de Madeira. Isso é casas de madeira que eu também o acompanhei e consta uma homenagem”, disse.