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Diretor da Folha de Irati e dono da autoescola Irati falam sobre recuperação da Covid-19

Rodrigo Nogueira dos Santos ficou quase um mês internado na Santa Casa de Irati, onde foi entubado. Já Nilton Pabis permaneceu cinco dias no Pronto Atendimento Municipal/Karin Franco, com reportagem de Rodrigo Zub e Paulo Sava

Nilton Pabis e Rodrigo Nogueira dos Santos. Foto: Divulgação

O diretor do jornal Folha de Irati, Nilton Pabis, e o proprietário da autoescola Irati, Rodrigo Nogueira dos Santos, falaram à Rádio Najuá sobre a recuperação da Covid-19 e sequelas deixadas pela doença.

Confira o áudio da reportagem no fim do texto

Nilton ficou internado cinco dias no Pronto Atendimento Municipal no início de abril. Ele conta que no começo, teve sintomas muito leves como um arranhão na garganta. “Eu peguei Covid, tive um arranhadinho na garganta. Minha esposa tinha pegado primeiro, minha sogra, a filha da minha sogra tinha aparecido Covid na família antes. E eu peguei os sintomas, mas estava de boa. Inclusive, eu fiz o exame e estava cortando grama em casa, estava muito bem”, disse Nilton.

Foi no término do período de isolamento para o tratamento da doença que os sintomas começaram a ficar mais graves. “Quando faltava dois dias para ter alta. Eu lembro que iria ter alta na terça-feira e no domingo, 4h da manhã começou a surgir febre. Um pouco antes disso começou a surgir dor nas costas e quando surgiu febre, surgiu calafrio. Eu fiz um primeiro exame, na primeira tomografia que apareceu um pouco de comprometimento do pulmão, e conforme foi passando o tempo, mesmo medicado o comprometimento do pulmão estava aumentando. Quando eu fiz o último exame quando estava com 25% do pulmão comprometido eu fui até na UPA [Pronto Atendimento] mostrar e acabei ficando internado”, conta o diretor da Folha de Irati.

A internação foi uma surpresa para Nilton que não esperava que o pulmão estivesse tão comprometido. “Só que o curioso é que neste momento, eu já não tinha mais febre, tinha um pouco de tosse e me sentia bem. Eu acabei indo mostrar o exame por um descompromisso de consciência, só pra mostrar que estava legal e foi justamente onde no momento que o meu pulmão estava mais comprometido, quando a gente parecia melhorar. Isso mostra o quanto a doença é traiçoeira”, explica.


Durante os cinco dias de internamento no Pronto Atendimento, ele não precisou usar oxigênio, mas usou uma medicação mais forte para segurar o comprometimento do pulmão. “Mesmo eu não tendo sido internado na Santa Casa, mas lá na UPA tivemos o mesmo atendimento que foi destinado lá no hospital. Isso é uma coisa que conforta não só a gente, mas conforta a família. Porque quando iam pegar uma informação para a gente ou levar uma muda de roupa, algo assim, sabiam que a gente estava sendo bem tratado”, disse.

Apesar do quadro de Nilton ter evoluído bem, a sua família acabou tendo perdas com a Covid-19. Sua sogra, que estava internada no mesmo período, acabou falecendo em virtude da doença. “A minha sogra que foi internada alguns dias antes de mim, ela foi internada com 85% de comprometimento no pulmão. E ela acabou tendo uma melhora, acabou chegando a falar com familiares e faleceu no Domingo de Páscoa. Eu tive alta no Sábado de Aleluia e minha sogra faleceu no Domingo de Páscoa”, conta.

Além das sequelas da doença, Nilton destaca que o lado emocional das pessoas também é afetado pela doença. “A vida da gente, não só na saúde, mas emocionalmente também, vira um turbilhão porque você vê toda a família contaminada, aquela preocupação com quem está no hospital, sem saber o que vai acontecer porque é um futuro incerto para cada um que está lá. Você não tem nenhum parâmetro para dizer se aquela pessoa, se ela tem comorbidade ou não tem comorbidade, se ela vai sair ou não vai sair dessa situação”, conta o diretor da Folha de Irati.

No pós-covid, as sequelas físicas foram diferentes. Nilton conta que uma das primeiras sensações foi o excesso de suor. “A sensação de fraqueza é uma coisa absurda. E você sua muito. Eu suava demais. Eu, durante à noite, chegava a trocar duas vezes de camiseta, a quantia que suava. E parece que é uma frescura da gente. Parece que você está fazendo corpo mole, mas não é. A pessoa fica em um estado precário. Não dá vontade de fazer nada. Você fica muito fraco. Você sua demais”, relata.

Como ele possui diabetes e pressão alta, essas comorbidades também precisaram de atenção no pós-Covid. “A minha diabete descompensou de uma forma! Eu usava insulina antes, mas usava de uma forma controlada. Eu tinha pico de diabete de 480, 520, isso com altas doses de insulina. E de madrugada, minha diabete cai para 70, 60. Às vezes, eu acordava de madrugada tendo uma crise de hipoglicemia. Você ia para geladeira, comia doce. Daqui a pouco você estava com a diabete alta de novo. Então, havia uma descompensação”, conta.

Além disso, uma crise de ansiedade também fez com que ele acabasse ganhando peso durante o período pós-Covid. “Dava vontade de comer a mesa. É insaciável a fome que dá depois disso. Insaciável. Você não consegue parar de comer, você não consegue parar de beliscar. Eu perdi seis, sete quilos, do começo dos sintomas. Eu tive uma perda de apetite. Emagreci seis a sete quilos. Quando fui internado na UPA ainda estava dentro desse peso mais baixo. Quando eu sai da UPA, eu engordei 14 quilos depois. E não emagreci ainda. Emagreci uns dois. Mas muito por causa dessa ansiedade que dá de comer absurda que não é fome”, relata.

Agora, Nilton conta que a prioridade está sendo estabilizar a diabetes. “Ela já melhorou muito do que estava, daqueles picos, já está regular, mas ela continua altinha ainda. Então, preciso dar uma segurada primeiro na diabetes e depois que vai tratar do peso”, disse.

Outra sequela da Covid-19 são as dores. “A dor nas costas ficou uma coisa muito marcante, dor nas pernas muito marcante. Não é toda hora, mas quando você vai fazer um exercício que te exige um pouco mais, isso permite. Esse final de semana passado que eu me atrevi a dar a primeira volta de cavalo depois que eu sai. Não tinha coragem ainda porque tinha medo de firmeza e tudo mais. Agora aos poucos que você vai voltando a atividade”, explica.

No caso de Rodrigo, a evolução da Covid-19 foi mais complicada. Sem comorbidades, ele chegou a ficar internado na Santa Casa de Irati entre os dias 22 de março e 20 de abril. Durante esse período, ele foi entubado e teve que passar por fisioterapia para se recuperar.

Instrutor e proprietário de autoescola, Rodrigo conta que antes de sentir os primeiros sintomas de Covid-19 não imaginava que poderia ser contaminado. “Sou sincero em dizer que eu mesmo também achei que não tinha tanto risco, não pegaria, porque a gente andava bastante, trabalhava muito como instrutor prático de autoescola”, conta.

No início, Rodrigo não sentiu muitos sintomas e até chegou a realizar um teste que apontou resultado negativo para contaminação. A preocupação aumentou quando surgiu uma tosse mais seca. “Eu não tive sintomas muito fortes de momento. Não tive febre, não tive aqueles calafrios, eu não perdi o paladar. Tanto é que quando começou, para eu ir na UPA fazer o exame, o primeiro exame que fiz até deu negativo, que foi feito no pavilhão do parque e depois passado dias, começou uma tosse seca e eu não me sentia bem, principalmente à noite, quando eu ia tomar um banho, que precisava um pouco mais da minha força, começava aquela tossinha e um pouquinho de falta de ar”, conta.

Com o agravamento dos sintomas, ele decidiu fazer um teste em um laboratório que acabou dando positivo. Ele foi até o Pronto Atendimento e depois orientado para procurar a unidade François Abib, no Joaquim Zarpellon, onde estava a Unidade Sentinela na época. “Me passaram remédio. Eu voltei para casa. Fiquei quase uma semana em casa e no final de semana me senti um pouco pior, com falta de ar e na segunda-feira de manhã, eu retornei para UPA e foi no dia 22 de março que eu fui para Santa Casa lá e fui intubado”, conta.

Quando estava no Pronto Atendimento, Rodrigo chegou a receber apoio da enfermeira Luciane Batista, quando soube que seria internado. Ele estava com 80% de comprometimento do pulmão. “Eu tive a notícia que eu ia receber oxigênio. Até pensei que ia levar esse oxigênio para casa. Não entendi o que estava acontecendo. Estava com um pouco de faltar de ar, estava um pouco avantajado, na verdade. Ela [a enfermeira] chegou, falou comigo, falou do que ela tinha passado – que também passou por isso – e me deu uma força. Eu pedi para ela o que ela podia fazer por mim, tinha filho, queria voltar o quanto antes para casa. Quando o doutor me falou que poderia receber oxigênio e voltar para casa à tarde, eu fiquei super tranquilo. Mudou um pouco o procedimento na hora, quem sabe por causa da tomografia que foi feita. Aí fui direto para a Santa Casa à tarde. Quando eu pensei que voltaria para a minha casa, eu fui para a Santa Casa”, disse.

Na Santa Casa de Irati, o médico explicou o procedimento de intubação à Rodrigo, que apesar de não entender muito o que estava acontecendo, pediu que o médico realizasse os procedimentos necessários. Somente após acordar da intubação que ele conseguiu começar a entender o que havia acontecido. “Eles perguntaram para mim no dia que eu fui entubado quanto tempo que eu achava que estava lá. Eu não tinha noção porque a gente, depois que está lá dentro intubado, com todos os remédios, você não tem noção do tempo, você não sabe o que está acontecendo. Pelo menos no meu caso foi assim. Eu tinha uns lances. Acho que quando cortava um pouco do efeito do remédio, eu variava muito que estava viajando, que estava em um outro país, numa cidade, às vezes lugares que eu nunca tive. A maioria dos lugares eu nunca tive. Foi uma coisa curiosa. Eles me perguntaram quando estava voltando em si em quantos dias eu achava que estava lá intubado no caso, se eu sabia o que estava acontecendo. Eu falei que vagamente, eu lembrava o que estava acontecendo. Eles perguntaram da família, dos filhos, para ir voltando. Aí eu falei para o doutor: ‘Não tenho ideia de quantos dias estou aqui’. E ele: ‘Vamos, fala aí. Vamos brincar, descontrair. Veja aí quanto você acha’. Aí eu falei: ‘Pelo jeito que o senhor está falando, vai fazer o quê? Uma semana, dez dias’. Já fazia praticamente 20 dias que eu estava entubado. Eu tinha perdido completamente a noção do tempo”, conta.

Rodrigo mora em uma chácara, próxima à Vila Rural, e foi lá que sua recuperação aconteceu após a alta no hospital. “Eu continuo bastante me cuidando. Ainda tenho algumas coisas para recuperar. Ainda me falta o ar, me falta o fôlego como diz. Também tenho muito dores nas costas e ficou um tanto quanto as feridas que tenho no peito e na parte das costas, que ainda incomodam bastante”, disse.

O proprietário da autoescola Irati chegou a fazer fisioterapia em casa para se recuperar e continuou a tomar remédios receitados pelo médico, principalmente para controlar a arritmia cardíaca.

Tratamento precoce: Nos dois casos, os pacientes também fizeram uso do tratamento precoce com uso de remédios como hidroxicloroquina e azitromicina.

No caso de Nilton, ele chegou a fazer o protocolo três vezes. “É muito difícil a gente saber nesse contexto o que dá certo e o que não dá. Eu acredito que deu. Porque não ultrapassou muito dos 25% de comprometimento do pulmão. Eu tive uma melhora. Não tive aquele agravamento. Não precisei usar oxigênio”, conta.

Contudo, o diretor relembrou o caso do prefeito de Guamiranga, Marcos Henrique Chiaradia, que fez o tratamento precoce, mas acabou falecendo em virtude da Covid-19.

Nilton comentou que havia agendado uma entrevista com ele, quando o resultado positivo de Covid-19 chegou para o prefeito. “Eu estava fazendo uma entrevista com o Marcos, quando o Marcos positivou. Até estava trocando uma experiência, a gente estava conversando. Ele falou: ‘Viu, o que você teve de sintomas?’. Eu falei: ‘Meu sintoma inicial foi um arranhado na garganta’. Ele comentou: ‘Estou desde ontem com um arranhadinho na garganta’. Quando eu foi fazer a entrevista com a secretária, ele foi fazer o teste de Covid. Quando ele saiu de lá, eu já não entrevistei mais ele, porque ele já tinha positivado. Lá eles estavam aplicando aquele teste rápido. Ele passou para consulta imediatamente, foi para isolamento, mas nem mesmo seguindo todo o rigor e o protocolo, e todo o tratamento de forma correta, poupou ele de perder a vida mais tarde”, disse Nilton.

O diretor da Folha de Irati destacou como a doença é perigosa. “Essa doença é muito traiçoeira e muito seletiva, independente do tratamento, independente da forma, pessoas com comorbidade, outras sem comorbidade. Se você pegar a minha diferença e a diferença do Rodrigo, outro entrevistado. Eu com comorbidade. Ele sem comorbidade. Ele ficou 20 dias entubado e eu não cheguei ir pro tubo”, conta.

Rodrigo explica que em seu caso, ele também usou os medicamentos. “Fiquei praticamente uma semana em casa, tomando todos os medicamentos, e assim mesmo, no domingo para segunda-feira, que começou a falta de ar, foi aí que eu fui pra UPA e os outros procedimentos do dia 22 de março em diante”, disse.

O tratamento precoce não é recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). De acordo com a OMS, no caso da hidroxicloroquina e da cloroquina, não há evidência científica até o momento de que esses medicamentos sejam eficazes e seguros no tratamento da Covid-19. Já no caso da ivermectina, a organização não recomenda o uso para quaisquer outros propósitos diferentes daqueles para os quais seu uso está devidamente autorizado, como para tratamento de oncocercose e sarna, pois a evidência atual sobre o uso desse medicamento para tratar pacientes com Covid-19 é inconclusiva.