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DCE inicia debate para implantação de sistema de cotas raciais na Unicentro

Presidente do DCE, Leonardo Melo, explica que, dentre universidades estaduais, apenas a Unicentro e Unioeste não possuem o sistema de cotas raciais no Paraná/Karin Franco, com reportagem de Rodrigo Zub e Juarez Oliveira

Presidente do DCE, Leonardo Melo, está encabeçando movimento que reivindica implantação de cotas raciais na Unicentro. Foto: Divulgação

O Diretório Central dos Estudantes iniciou um movimento reivindicando a implantação de cotas raciais na Universidade Estadual do Centro-Oeste do Paraná (Unicentro). De acordo com o presidente do DCE, Leonardo Melo, dentre as universidades estaduais, apenas a Unicentro e a Unioeste não aplicam o sistema de cotas raciais em seus processos seletivos.

Leonardo, que também é estudante de psicologia, conta que o movimento iniciou junto com outros grupos estudantis que já discutem a implantação do sistema. “Nós começamos essa mobilização, que foi puxada inicialmente pelo MUP, o Movimento por uma Universidade Popular, pela UJC também, União da Juventude Comunista, e que agora o movimento cresce cada vez mais, com novos integrantes, novos estudantes que estão lutando por isso”, disse o estudante durante entrevista à Najuá.

Os estudantes organizaram um calendário de lutas onde devem promover cines debates, palestras com pesquisadores, campanhas, vídeos informativos, textos e conversas sobre os motivos de ter cotas raciais na universidade. A programação deve ser realizada durante este mês nas redes sociais do movimento estudantil.


Segundo o presidente do DCE, as cotas raciais precisam ser implantadas na universidade para corrigir um problema histórico. “No Brasil, nós tivemos um processo de mais de 300 anos de escravidão. A sociedade mais escravista que tivemos. Neste sentido, a população negra, que é a maioria da população brasileira, mesmo após o fim da escravidão se viu com inúmeras dificuldades, inúmeras dificuldades de poder sobreviver, de ter acesso à emprego, à saúde, à educação”, explica Leonardo.

Ele destaca que a experiência dos negros é completamente diferente dos imigrantes europeus. “Desde que chegaram no País, foram submetidos a situações de vida extremamente ruins. Isso não ocorreu, por exemplo, com imigrantes europeus que tiveram um auxílio do estado muito grande para virem para o País. Isso ocorreu porque existia a ideia de embranquecer a população. O estado brasileiro tentou trazer imigrantes de vários locais do mundo para embranquecer a população, então essas pessoas sempre tiveram uma capacidade a mais, possibilidades a mais de poder sobreviver aqui no país”, disse.

Leonardo explica que o resultado disso é que a herança deixada por este fato histórico afeta pessoas negras até hoje, com problemas como o racismo. “O Brasil vendeu uma imagem para o exterior que é uma imagem da democracia racial, uma imagem que aqui nunca teve racismo, de que no Brasil as pessoas são iguais e etc. Mas essa realidade não se sustenta. Isso é uma falácia. No Brasil existiu e existe muito racismo”, avalia o presidente do DCE.

As discussões iniciaram com o movimento negro, mas foi no final da década de 90, que as mobilizações tiveram mais força com a implementação de cotas na Universidade de Brasília (UnB). Na década seguinte, as universidades federais também implementariam as cotas raciais.

Leonardo conta que o acesso à universidade para a população negra precisa ser garantido para diminuir uma desigualdade. “Tendo em vista que o nosso vestibular, já é por si só injusto, é desigual, geralmente nas universidades estaduais, que tem uma maior concorrência, assim como nas federais também, entram aqueles que tiveram oportunidades durante sua vida a ter melhores condições de renda, melhor acesso à educação e tudo mais. E a população negra majoritariamente não entra nisso”, conta.

Com o sistema das cotas raciais, o processo seletivo terá uma porcentagem reservada para concorrentes que sejam negros ou pardos. Essa porcentagem é diferente em cada universidade e para a Unicentro, a proposta ainda está sendo discutida. “Existem universidades que essas cotas raciais são destinadas à toda a população negra e parda. Existem universidades que essas vagas são destinadas à população negra e parda, oriundos de escolas públicas. Isso ainda está em construção no caso da Unicentro de qual vai ser essa porcentagem e esse direcionamento a essas vagas”, explica.

Apesar de não ter dados sobre a quantidade de alunos negros na Unicentro, Leonardo conta que é visível a baixa participação da população negra na universidade. “Na Unicentro, é curioso como na maior parte das salas de aula existem muito poucas pessoas negras. Em todos os cursos. Mesmo sendo uma universidade pública, é muito difícil para a população negra chegar a esse lugar. Eu, particularmente, entrei pelo Sistema Universal, que é aberto a todos, mas a quantidade de pessoas negras na Unicentro, não só estudantes, como docentes é muito pouco”, disse.

Essa não é a primeira tentativa do movimento estudantil em relação ao assunto. Segundo Leonardo, os estudantes já questionaram a reitoria o porquê da ausência do sistema de cotas na Unicentro. “No passado, alguns estudantes já questionaram a reitoria a cerca disso e nos foi dito de que já existia as cotas sociais, que são as cotas voltadas para as pessoas oriundas de escola pública. Porém, nós compreendemos que as cotas sociais elas não abarcam a totalidade da população que também precisa do ensino superior, que tem muita dificuldade de ingressar”, explica.

Agora, os estudantes estão elaborando um documento que será apresentado para o Conselho de ensino, pesquisa e extensão da universidade, que poderá dar prosseguimento ao pedido após votação. O movimento estudantil tem buscado apoio da comunidade acadêmica para conseguir levar a pauta em frente.

Contudo, a baixa representação pode ser um dos desafios dos estudantes durante este período. Leonardo explica que a universidade possui três conselhos superiores, onde em cada conselho, há apenas uma vaga para cada campus, excluindo as unidades avançadas da universidade. “Desse conselho superior os estudantes podem participar, mas infelizmente nossa voz, nosso voto é muito pequeno, comparado a dos professores”, disse.

As redes sociais deverão ser a principal ferramenta que será usada para as discussões das cotas raciais. Por enquanto, o movimento estudantil possui duas páginas no Instagram, onde podem ser acompanhadas as discussões. São elas: @lutapelascotas_unicentro e @mup.unicentro.

Movimento na pandemia: A pandemia e as aulas remotas afetaram os movimentos estudantis na Unicentro. Agora, segundo Leonardo, a tentativa é recuperar a força dos estudantes. “Nós não estamos tendo aulas presenciais e isso afetou bastante o movimento estudantil. O movimento estudantil está mais desmobilizado, está mais fragilizado. Nós tivemos muita dificuldade de construir uma gestão de DCE que fosse permanente, a partir daí, construímos uma gestão provisória que terá duração de três meses e que vai ter como um dos objetivos é fomentar a reconstrução do movimento estudantil. Essa gestão vai durar até setembro”, disse.

Leonardo destacou que além das cotas raciais, o objetivo é ampliar a comunicação dos estudantes com a reitoria neste período. Entretanto, ele reconhece que a pouca duração da gestão traz alguns impeditivos como dificuldade de propostas a longo prazo, mas mesmo assim, a gestão tem trazido algumas propostas para serem discutidas. “Nós também objetivamos, após a conquista dessa pauta, a ampliação da moradia estudantil que atualmente nós temos uma no campus Irati, temos uma em Guarapuava. Nós reivindicamos também pela luta da população trans, reivindicamos por cotas de pessoas trans. Neste sentido, queremos como fim último para construir uma universidade popular, eu sou também militante do MUP, Movimento por uma Universidade Popular, que é um movimento organizado no Brasil inteiro. Nós queremos, por fim último, como pauta de longo prazo, o fim do vestibular, porque compreendemos que o vestibular já é excludente por si só, existem países onde o ensino superior é totalmente universalizado, que as pessoas têm muito mais facilidade de ingressar no ensino superior e de ter um bom acesso à educação”, disse o presidente do DCE.