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Paraná conquista status de área livre da febre aftosa sem vacinação

Conquista foi confirmada no último dia 27 pela Organização Mundial de Saúde Animal. Certificação deve ajudar a abrir mercados para a produção de carne paranaense/Paulo Henrique Sava, com reportagem de Juarez Oliveira e informações da AEN
Paraná conquistou certificado internacional de área livre da febre aftosa sem vacinação. Foto: AEN

O Paraná conquistou no último dia 27 o status de área livre da febre aftosa sem vacinação. A certificação foi confirmada pela Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) em assembleia geral realizada de forma virtual. Somente na região da AMCESPAR, existem cerca de 83.736 cabeças de bovinos e búfalos. Em Irati, são cerca de 1200 produtores. Em entrevista ao programa Espaço Cidadão nesta quarta-feira, 02, a médica veterinária da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (ADAPAR), Cristina Barra do Amaral Bittencourt, comemorou a conquista.

“Foi uma vitória almejada há muitos anos, gostaríamos que fosse antes, porém não foi possível, mas enfim ela chegou. Neste dia 27 de maio de 2021, tivemos pela manhã a entrega oficial da Ministra da Agricultura (Tereza Cristina) do certificado para os estados que também são considerados livres sem vacinação, e à tarde tivemos uma cerimônia com o governador do estado (Ratinho Júnior) e outras entidades representativas de todo o setor agropecuário, que foi transmitida pela internet devido à pandemia, e a festa cada um fez em sua casa depois. A vitória foi muito importante, muito alegre e bem comemorada. Agora, nós vamos continuar mantendo este status”, frisou.

Cristina ressaltou que este reconhecimento irá proporcionar uma garantia para que outros países possam adquirir produtos oriundos da agropecuária paranaense. “Não só diretamente a carne de gado ou de suínos vai ser valorizada, mas outros produtos também. Muitos países mais ricos, que já são livres de febre aftosa sem vacinação há muitos anos, têm medo de comprar de áreas onde ainda se pratica vacinação, pois temem que, junto, venha o vírus. Eles consideram que, se a área ainda está vacinando, pode existir o vírus ali e acabar indo na carne congelada, nos grãos de soja, em qualquer tipo de carne ou de algum outro produto da agropecuária. Por isto, eles acabam não comprando os produtos de áreas onde se pratica a vacinação”, pontuou.

Com a conquista da certificação, o Paraná deu uma chancela para que outros países tenham a certeza de que o vírus da febre aftosa não está mais circulando pelo estado. Em caso de detecção de um caso, Cristina garantiu que a doença será controlada rapidamente para que ela não se espalhe. “Quando surge algum caso ou foco, a área perde temporariamente o certificado de livre sem vacinação, mas ela tem que retomá-lo rapidamente, porque se provou que não tem mais, pode provar que vai conseguir controlar rapidamente, para que não comprometa outras áreas também”, afirmou.

O Paraná é o principal exportador de carne de aves e o terceiro maior exportador de carne suína do Brasil, principalmente para países do oriente e da Ásia. Segundo Cristina, o principal objetivo do estado com a certificação da carne bovina é a conquista de novos mercados para a produção agropecuária paranaense. “Agora, o nosso interesse é buscar aqueles países que ainda não compram e que vão passar a comprar e podem remunerar melhor os nossos produtos. Exemplos importantes são o Japão, a Coréia, o México. Estes países que já são livres há muito tempo vão passar a adquirir a nossa carne e vai ser um mercado muito importante, o que vai se refletir muito bem no nosso estado”, comentou.

Cristina afirmou que a certificação trará resultados diretos e indiretos também para os produtores. “Vai refletir em cadeia, primeiro para os lucros diretos e depois para os indiretos. O Paraná está sendo um estado agropecuário muito representativo no nosso país, e tende a aumentar. Temos a produção bem diversificada, pois temos vários produtos da agropecuária que podem ir para exportação e têm consumo interno. Vamos aumentar nossa representatividade no país”, ressaltou.

Além do Paraná, os estados do Rio Grande do Sul, Acre, Rondônia e partes do Amazonas e do Mato Grosso receberam a certificação. Santa Catarina já é considerada área livre da febre aftosa sem vacinação há alguns anos. No Paraná, a última campanha de vacinação foi feita em maio de 2019. De lá para cá, a vacinação não foi realizada. Em 2020, foram coletadas amostras de sorologia em todo o estado para análise em laboratório. O resultado apontou que não havia mais circulação viral, segundo Cristina.

“Este resultado, aliado a todos os relatórios que foram encaminhados para o Ministério da Agricultura, todos os controles que fazemos, as nossas vigilâncias, controle de trânsito e nos frigoríficos, foi tudo encaminhado para o Ministério da Agricultura analisar. O Ministério viu que tudo estava bem controlado e foi dada a condição nacional de livre de febre aftosa sem vacinação para o Paraná. Depois, foram encaminhados mais relatórios e resultados para a OIE, e tivemos a felicidade de sermos reconhecidos internacionalmente”, pontuou.


Histórico - A luta pela conquista da certificação de área livre da febre aftosa começou em 1965, quando foram aplicadas as primeiras vacinas. A imunização do gado foi intensificada na década de 70, quando começaram a se formar as primeiras estruturas estaduais de controle da doença. “No Paraná, era chamado de GECOFA, Gerência de Controle da Febre Aftosa, subordinada à secretaria de Agricultura. No começo, as coisas não foram fáceis, pois tinham produtores que não acreditavam, colegas meus apanharam de produtores que acharam que não resolvia. Foi um serviço de “formiguinhas”, de anos a fio, principalmente de conscientização dos produtores”, contou.

O pico de casos da febre aftosa ocorreu entre os anos de 1979 e 1980, quando o estado registrou 1500 casos da doença. Naquela época, os animais acabavam morrendo por inanição, pois não conseguiam andar nem comer. Por conta disso, houve necessidade de melhorar a qualidade das vacinas e das estruturas estaduais. No Paraná, o Departamento de Fiscalização da Secretaria de Estado da Agricultura passou a fazer as vacinações três vezes por ano, em janeiro, maio e setembro. Depois, com a melhora na qualidade das vacinas, a imunização passou a ser feita duas vezes por ano, em abril e outubro, com acompanhamento dos fiscais do estado, que faziam o controle dos animais vacinados em cada propriedade. Posteriormente, as campanhas de vacinação foram postergadas para os meses de maio e novembro.

Em 1999, foi feito o primeiro inquérito epidemiológico, com coleta de sangue dos animais nas propriedades rurais, o qual constatou que o vírus já não estava circulando no Paraná e resultou na conquista da certificação de área livre da aftosa com vacinação no ano 2000.

Já no ano de2005, alguns focos de febre aftosa surgiram no Mato Grosso do Sul. Com a entrada de algumas cabeças de gado oriundas do estado vizinho, o Paraná perdeu a certificação, recuperada em 2008. Depois, o Paraná apresentou melhora nos índices de vacinação, que na última campanha chegou a 95% do rebanho paranaense.

Continuidade dos trabalhos - Mesmo com a conquista do certificado, Cristina alerta os produtores que o trabalho da ADAPAR terá continuidade, com foco em três pilares: cadastros dos proprietários, controle do trânsito animal e a vigilância. “Como os animais estão sem a proteção da doença, eles estão sujeitos a pegar febre aftosa se houver alguma contaminação. Então, temos que ficar muito alertas e aí entra também o trabalho e o comprometimento dos produtores rurais, pois se acontecer algum caso semelhante à doença, temos que ser avisados e tomar todas as providências para verificar. Se for, devemos controlar rapidamente para não comprometer todo este estado”, frisou.

Campanha de atualização dos rebanhos continua - A campanha de atualização dos rebanhos continua até o dia 30 de junho. Por conta da pandemia, os comprovantes estão disponíveis em alguns pontos e para algumas lideranças das comunidades. O produtor deve preencher o documento com seus dados e com os dados dos animais, classificando-os por idade e sexo. Depois, ele pode entregar o comprovante na sede da ADAPAR, na Rua João Cândido Ferreira, 61, ou enviar pelo WhatsApp (42) 3422-7554. Segundo Cristina, o fim da vacinação facilitou a vida dos produtores.

“Ele não vai gastar porque não precisa comprar a vacina nem vir até a cidade. Ele pode buscar este comprovante em uma localidade mais próxima, preencher e mandar pelo WhatsApp ou por uma pessoa bem confiável para que possa entregar aqui. As pessoas mais velhas que não querem comparecer têm esta facilidade”, finalizou.