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Livro conta trajetória de artistas iratienses e bastidores de produções

Obra teve pré-lançamento na 5ª Conferência Municipal de Cultura de Irati, realizada nesta semana, pela primeira vez totalmente online/Karin Franco, com reportagem de Jussara Harmuch, Juarez Oliveira e Rodrigo Zub

Autor do livro "O Interior de Todo Artista", Mário Lopes, contou detalhes da publicação em entrevista à Najuá. Foto: Divulgação 

Trazer as histórias dos artistas de Irati é um dos objetivos do livro "O Interior de Todo Artista", que teve pré-lançamento nesta semana durante a 5ª Conferência Municipal de Cultura. O evento que aconteceu online pela primeira vez contou com a participação do autor do livro, Mário Lopes.

À Rádio Najuá, o autor e roteirista destacou que o objetivo era recuperar a trajetória dos artistas e entender como eles conseguiram se expressar em locais fora de um eixo comercial. “Eu queria saber como era esse processo de fazer arte fora de um grande centro porque aqui [Curitiba] as coisas estão mais perto, o público é maior, o desafio aí é, não só em Irati, mas em qualquer cidade menor, em termos de tamanho e população, vai ser realmente um desafio maior”, analisa.

O livro traz no começo a história dos artistas e depois segue no processo de criação de suas obras. Para Mário, é importante que a produção desses artistas seja reconhecida. “Esses fatos precisam ser vistos como relevantes para a comunidade local, para as autoridades, para todo mundo. Não só para Irati. O interessante é isso. Esse livro vai acabar sendo relevante para qualquer artista que se propõe a fazer um trabalho de qualidade fora do eixo comercial que esteja mais estabelecido. Fora do estado de São Paulo e Rio de Janeiro”, destaca. “A gente está falando de gente de Irati. Gente que nasceu aí ou que está radicado em Irati há muito tempo. Que produz arte com qualidade. Que orgulha a cidade”, completa o autor.


O livro foi produzido pela Harlequin Produções e ilustrado pela Maria Luisa de Almeida Schleder. A produção contou com mais de 12 profissionais diretamente envolvidos, além de entrevistados e outras pessoas de Irati que contribuíram no processo.

Mário explica que o processo de pesquisa para o livro envolveu a participação dos artistas e várias idas e vindas de Curitiba a Irati. “Primeiro eu conversei com cada um dos artistas. Procurei me informar previamente com o trabalho de cada um deles, obviamente, porque até a seleção contou com esse processo de a gente poder entender, ver o trabalho, ver quem faz o quê na cidade. Na sequência, eu sentei com cada um deles e conversei por um bom tempo, gravei essas entrevistas, fui na casa do Leo [Leonardo Barroso], fui na casa de todos ali, conversei um bom tempo para entender as histórias de vida. Na sequência, eu pedi que cada um me enviasse materiais próprios, sejam eles artísticos, sejam eles matérias jornalísticas da imprensa local, ou até nacional, em alguns casos. A partir daí fui me municiando de informações e fui também pedindo que cada um me contasse um pouco mais de alguma coisa que ficou um pouco mal explicada, mal entendida pela minha parte. Eu os incomodei bastante”, disse.

O autor conta que tentou entrelaçar as histórias, trazendo artistas de diferentes segmentos. “Todas as histórias deles se cruzam e a partir daí fica interessante para poder perceber as consciências e as divergências de trajetória de cada um”, conta.

Um dos artistas que aparecem no livro é o fotógrafo Lúcio Robaskievicz, diretor e idealizador do filme “Zé: a vida como ela é”. O projeto foi custeado pelo próprio idealizador. Mário conta que ficou surpreso ao descobrir que um longa-metragem foi realizado na cidade. “Eu não imaginei que tivesse cinema. Para mim seria uma possiblidade mais remota. Pensei em artes que são mais resolvíveis com relação a recursos financeiros e estruturais. Quando me falaram que tinha sido feito um filme em Irati: ‘Uau, que bacana!’. Quando me falaram que foi um longa-metragem daí fiquei mais curioso ainda, mais impressionado”, contou.

Os bastidores do processo de criação foram contados no livro. “De imediato eu fiquei fascinado com essa possibilidade de alguém ter feito uma empreitada tão audaciosa como essa. De fato, no livro consta o apoio fundamental da Rádio Najuá, que foi até num momento de grande drama da produção. Eles tinham parado, tinham ficado três meses com chuvas direto, com um tempo como este que estamos vivendo agora, não só nublado, mas chovendo mesmo direto, e eles tiveram que parar a produção. Quando a Rádio Najuá fez uma entrevista com eles, deu aquela animada”, disse Mário.

O autor conta que o livro mostra que é possível fazer arte em qualquer lugar. “Todo mundo tem essa capacidade e tem diversos depoimentos no livro que mostram isso. O que a Nelci Wolski faz, Claudete Camargo, o que elas fizeram é impressionante. Elas conseguem democratizar, levam a arte para pessoas que tem deficiência intelectual, para pessoas que não tem muitas vezes capacidade de pagar uma escola para fazer dança, como é o caso da Izabela Proceke que ministrou aulas em grupo de crianças e adolescentes carentes. Então, é maravilhoso a gente perceber isso, esse potencial da arte que muitas vezes parece que está adormecido e não é”, destaca.

O livro foi idealizado pelo músico Vitor Martim, da Banda Rádio Radar, de Irati, que também tem sua história relatada no livro. O autor conta que tinha o objetivo de entender como eles conseguiram chegar em um programa nacional. Em 2015, a banda participou do programa SuperStar da Rede Globo. “Como essa gente conseguiu fazer um trabalho como o caso do Vitor, por exemplo, de ir num programa de audiência nacional, na maior TV do Brasil, tocando composição própria para milhares de pessoas. Isso é uma coisa impressionante””, afirmou.

A publicação traz momentos de descoberta para muitos artistas e até mesmo histórias que mostravam que a arte estava predestinada a acontecer. “A grande maioria começou até tardiamente nesse sentido. Houve pessoas que foram meio predestinadas. O Vitor, por exemplo, já chorava alto e os pais deles falavam: ‘Olha esse menino deve fazer alguma coisa com a voz dele’. Tem outros como o caso da Iza que o pai dela achava que ela ia fazer alguma coisa com esporte porque ela tinha muita vitalidade, foi para a dança. Então, havia essas pequenas percepções”, conta.

Contudo, Mário destaca que a arte até chegou em um momento tarde da vida de alguns artistas. “Mas a grande maioria foi se encontrando a partir do tempo. E é interessante perceber que como através das agruras e das delícias de vida de cada um, eles foram se conectando com a arte. Acho que esse processo é muito valioso. Tem histórias muito dramáticas. Por exemplo, a Claudete quem for ver a infância dela, vai se surpreender bastante com o que ela vivenciou”, disse.

Outro artista que aparece no livro é o jornalista e fotógrafo Leonardo Barroso, que já foi premiado no exterior e realizou exposições em diverso locais. “Para mim foi uma grande honra já quando ele me procurou. Eu falei: ‘Nossa!’. Surpreende porque a gente não espera se tornar – não sei se é da minha personalidade – mas a gente não imagina que tenha importância para se tornar personagem de um livro”, contou Leonardo.

Ele é neto da artista plástica, Elvira Kiatkoski Barroso, que apesar de não estar entre os artistas do livro, está representada na influência da arte na vida do neto. Para Leonardo, o processo de pesquisa do autor ajudou ele contar esta e outras histórias que possibilitam que as pessoas possam conhecer mais profundamente os artistas. “No final das contas, da maneira como ele nos entrevista, da maneira como ele pesquisa sobre a gente, não tem nada para melhorar e nada para piorar. Ele tem que contar a nossa história como ela foi. Até porque eu sou daquela máxima que se a gente pudesse fazer uma edição da nossa vida com que só a gente quisesse passar para os outros seria uma história pouco interessante porque a gente não quer mostrar as nossas fragilidades, nossas fraquezas, os desafios que a gente lutou muito para enfrentar, às vezes, quer esconder essas coisas e é isso que torna cada história interessante”, explica.

O projeto foi possível por meio do Programa Nacional de Apoio à Cultura, Ministério do Turismo e Secretaria Especial da Cultura, que possibilitou o patrocínio da Caminhos do Paraná e Fosforeira através de renúncia fiscal do Imposto de Renda.

A previsão de lançamento será para o próximo mês, quando serão feitas palestras, painéis e exposições programadas em Irati e Curitiba.

Mário Lopes também é autor do livro “O vírus que matou o tempo”, lançado no ano passado. O livro reúne contos escritos durante a pandemia. “Ele foi escrito no começo da pandemia, eu não tinha muita noção do panorama. Agora temos a vacina, está acontecendo um caminho para normalidade, mas na época não havia muita perspectiva do que aconteceria. Obviamente tem lá contos que eles são devaneios. Alguns deles são até apocalípticos de um extremo da pandemia. Outros são mais da coisa do ceticismo, do negacionismo, mas são situações bem diversas”, explica.

Conferência: Essa foi a primeira vez que o Conselho de Cultura de Irati realizou uma conferência totalmente online. De acordo com Leonardo, que também é vice-presidente do Conselho de Cultura, o novo formato foi uma novidade. “Foi um desafio bem grande porque nunca se havia feito uma Conferência Municipal de Cultura em formato 100% online. As conferências sempre envolviam a reunião de pessoas e muitas, muitas pessoas em geral para celebrar a cultura”, disse.

Além do pré-lançamento do livro de Mário Lopes, a conferência contou com a participação do produtor cultural, Beto Meira, que abordou mais formas de divulgar e produzir arte. “Outras maneiras de você enxergar produtos artísticos, para tornar interessante para diferentes públicos, além do público de arte. Que é um conhecimento que poucos artistas tem, pelo menos artistas inexperientes como é o meu caso, nós não temos, não vivemos diretamente de arte, então temos esse desafio de mostrar nossa arte enquanto um produto”, conta Leonardo.

A programação da conferência contou com apresentações artísticas da banda Rádio Radar e do Grupo Folclórico Ucraniano Ivan Kupalo, além de apresentação do Hino Nacional, Hino do Paraná e Hino de Irati, realizado em um pot-pourri feito por Gilson Rocha.

Durante a conferência também foi realizada a assembleia para definição dos novos representantes da sociedade civil do Conselho de Cultura. “Haverá indicação dos representantes governamentais para composição do novo conselho como um todo e a eleição da nova diretoria. E a gente parte para um outro momento desse conselho”, disse Leonardo sobre os próximos passos do Conselho.