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Iratiense Mauro Ledesma relata como está superando a perda de familiares para a Covid-19

Maria Rita Kaminski Ledesma faleceu por causa do Covid-19 em fevereiro. O esposo, Mauro Ledesma, conta como tem superado a perda/Karin Franco, com reportagem de Paulo Sava

Mauro Ledesma (foto) perdeu a esposa e um cunhado por complicações da Covid-19. Foto: Paulo Sava
A última vez que Mauro Ledesma viu sua esposa, Maria Rita Kaminski Ledesma, foi quando a deixou na unidade sentinela da Covid-19 em Irati. Depois disso, as notícias seriam apenas por meio do celular até o seu falecimento, no dia 3 de fevereiro.

A perda da esposa não foi a primeira. Na família de Rita, como era chamada pelos íntimos, o coronavírus vitimou um irmão e uma prima dela. Maria Rita trabalhou como professora por 30 anos na Universidade Estadual do Centro-Oeste do Paraná (Unicentro), chegando se ser vice-diretora e chefe de Departamento. Com dois filhos, de 32 e 34 anos, Maria Rita tentava se cuidar ao máximo, principalmente, por ser do grupo de risco, tendo uma diabete controlada.

Mauro conta que ela chegou até a parar de ir ao mercado. “A Rita gostava dela mesmo fazer as compras no mercado. Ultimamente, ela até nem ia no mercado. Ela fazia a lista de compras, mandava e o mercado levava lá em casa. A gente acha que é só de estranho que pega, mas não é porque acho que ela pegou na família. Não se sabe quem da família que pegou antes, porque todos eles, as irmãs dela, o irmão dela, todos pegaram”, contou o marido durante entrevista no programa Meio Dia em Notícias de quinta-feira, 15.  

Confira o vídeo completo da entrevista com Mauro no fim do texto


Os primeiros sintomas começaram a aparecer depois que irmão dela já havia falecido e as outras irmãs estavam internadas. “A Rita ficou dois dias em casa, mas ela não tinha sintoma. De repente, quando começou a dar tosse, ela foi. Começou a tomar aquele coquetel, ela estava bem boa, até mandou a empregada ficar em casa que ela começou a fazer todas as tarefas da casa. De repente, no terceiro dia, eu notei que ela começou a dormir demais. Ela acordou e não levantou. De tarde, eu cheguei e falei: ‘Escuta uma coisa, você não tá boa’. Ela disse: ‘Pois é, me deu uma moleza’. Eu disse: ‘Olha, isso não é coisa boa. Vamos lá na UPA’”, relata Mauro. 

Como os sintomas ainda eram leves, os dois imaginaram que seria mais uma consulta normal e que ela voltaria para casa ainda no mesmo dia. Mauro ainda não sabia que aquele momento seria a última vez que teria contato pessoal com a sua esposa. “Eu fui lá. Ela desceu. Até foi a última vez que eu vi ela. Não teve nenhuma despedida, nada. Ela pegou e falou para mim: ‘Você vai junto no mesmo carro, de repente, você pega’. ‘Mas já estamos dois, três dias aqui em casa, eu já peguei então’. Ela desceu do carro e até fiquei olhando. Eu disse: ‘Não posso descer?’. Ela disse: ‘Não, você não pode entrar, eles não vão deixar’. Eu disse: ‘Então, vou lá em casa. No que o médico te atender, você liga e eu já venho te buscar’. E nada dela me ligar. Daqui a pouco, meu filho veio e disse: ‘Pai, a mãe mandou uma mensagem que a ambulância está levando ela para internar’”, disse. 

Maria Rita ficou internada próxima de sua irmã, que continuava no hospital. A comunicação com a família aconteceu pelo WhatsApp, onde as irmãs davam notícias. Nos dois primeiros dias, os familiares recebiam as informações. Mas no terceiro dia de internamento, apenas a irmã de Maria Rita escreveu. “Uns dois dias ela se comunicava pelo WhatsApp. No terceiro dia, já não se comunicou. A irmã dela que mandou uma mensagem. Disse: ‘Olha, a Rita foi para a UTI’. Nossa, aquilo... A gente já levou um choque. No terceiro dia, ela já foi entubada”, conta. 

A partir desse momento a preocupação ficou ainda maior. “Isso aí não é mais vida. A pessoa ficou entubada, você já vê que começa o sofrimento”, relata Mauro. 

Enquanto ela estava na UTI, o hospital informava aos familiares o andamento do tratamento. Mauro conta que passava no hospital para ter informações, mas que a angustia crescia porque havia dias com boas notícias e dias com más notícias. “Essa doença é uma doença traiçoeira. Um dia você vai lá e você sai contente porque o médico diz: ‘Deu uma melhora’. De repente, você vai no outro dia e ele diz: ‘Olha, piorou. Está parando o rim’. De repente, ‘Vamos tratar do rim’. No outro dia: ‘Não foi preciso fazer a hemodiálise, o rim melhorou’. Isso mexe organismo inteiro. Você vai no outro dia, está querendo entrar em falência o outro órgão. Tratam daquilo e de repente vai indo”, explica.
 
Mas houve um dia em que o caso de Maria Rita começou a se agravar. “Fazia uns 15 dias que ela estava entubada, nós fomos e saímos até contentes de lá porque o médico falou para mim: ‘Acho que de amanhã em diante nós vamos trabalhar já para tirar ela da UTI’. No outro dia fui até alegre. ‘De certo, ela já saiu da UTI’. No que eu chego lá, o médico disse: ‘Deu um sangramento no intestino dela. Nós vamos fazer transfusão de sangue’. Fizeram a transfusão de sangue. Quando foi de noite, a gente conseguiu entrar em contato com o médico. Ele disse: ‘Infelizmente, os exames dela deram todos negativo. Talvez seja por causa da transfusão de sangue’”, contou. 

Antes mesmo de receber a notícia do falecimento de Maria Rita, Mauro já imaginava que não teria mais a esposa. “Quando foi para amanhecer, dia 3 de fevereiro, quando foi 5 horas da manhã, meu filho chegou e disse: ‘Pai, mandaram mensagem que é para nós ir no hospital’. Já preparei meus filhos. ‘Olha, a tua mãe faleceu porque o hospital não vai, às 5 horas da manhã, mandar mensagem dizendo que a tua mãe está saindo da UTI’. Já fomos preparados”, explica. 

Mauro conta que mesmo preparado emocionalmente para a notícia que viria, a informação de que Maria Rita havia falecido ainda foi um choque. “Mas assim mesmo, você leva um choque. Parece que levou uma paulada na cabeça. O teu cérebro para de funcionar. O teu coração parece que vai sair pela boca”, disse. 

Para Mauro, uma das situações mais difíceis é que por causa do Covid-19, os familiares não conseguem realizar um velório e o caixão é lacrado. “É uma imagem que nunca mais vai sair da tua cabeça porque você vê a funerária descarregar o caixão, você não poder ver por aquele vidrinho. A única imagem que temos dela, do tempo que estava internada, é a que eles mandaram uma foto. Mas é bom você nem querer ver isso aí, que é a pessoa entubada. É uma imagem muito desagradável, que fica na cabeça para sempre aquilo”, conta. 

Após a perda, Mauro tenta se reerguer, mas conta que está difícil. “Pra mim acabou a vida. Eu não tenho projeto nenhum para o futuro porque tudo que eu tinha programado pra daqui pra frente, a primeira pessoa que estava incluída era a Rita”, disse. 

Ele conta que a doença é difícil de entender, já que ele não pegou, mesmo convivendo com sua esposa já infectada e tendo seu filho também diagnosticado com a doença. Mesmo assim, ele acredita que a única forma de evitar um dor como a família dele está passando é por meio da prevenção. “Tem que usar máscara, o álcool em gel, procurar não ficar em aglomeração. Mas assim mesmo o pessoal insiste. A gente, às vezes, vê um pessoal sem máscara. Você vai falar, a pessoa ainda fica brava com você. Esses dias, estava uma senhora aqui na rodoviária, eu falei: ‘A senhora não tem medo?’. Ela disse: ‘É, eu não tenho medo de morrer’. Eu disse: ‘Não é o problema da senhora morrer, mas na sua casa ninguém tem medo?’. Ela disse: ‘Ah não, eles têm’. Eu disse: ‘Pois é, a senhora vê, se a senhora passa para um familiar o vírus, passa para um familiar, um conhecido seu e a pessoa morre, a senhora vai ficar com esse peso na consciência o resto da vida’. Ela disse: ‘É, eu acho que eu vou começar usar máscara’. Mesmo com tudo que sai na televisão, na rádio, ainda tem gente desinformada”, disse.

Acompanhe o vídeo da entrevista com Mauro Ledesma