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Santa Casa enfrenta risco de falta de medicamento e atraso de pagamentos de leitos da Covid

JARDIM DA PAZ

Em entrevista à Najuá, Provedor da Santa Casa de Irati, Ladislao Obrzut, e o diretor, Sidnei Barankievicz, falaram sobre a situação do hospital, que habilitou mais leitos de enfermaria e UTI para atender os pacientes contaminados/Karin Franco, com reportagem de Rodrigo Zub e Paulo Sava

Imagem da recepção da Santa Casa de Irati. Foto: Jussara Harmuch

Falta de medicamentos e atrasos de pagamentos de leitos são alguns dos problemas que hospitais filantrópicos têm passado durante a pandemia do coronavírus. Em entrevista à Rádio Najuá, o provedor da Santa Casa de Irati, Ladislao Obrzut, e o diretor, Sidnei Barankievicz, contaram como está o financiamento de leitos e o que está sendo feito para conseguir mais medicamentos para pacientes internados.

De acordo com o diretor, a Santa Casa de Irati está com pagamentos de leitos atrasados desde o ano passado. “Nós temos ainda valores a receber desde novembro, dezembro, janeiro e fevereiro. Nenhum desses meses foram pagos. Porém, não é só uma questão de atraso, é uma questão burocrática na demora do processamento de um internamento. Por exemplo, os pacientes que foram internados em dezembro, hoje que veio a autorização da Regional de Saúde para que eu possa encaminhar o processo de cobrança desses leitos”, disse Sidnei. 

Os hospitais filantrópicos são instituições independentes que oferecem leitos ao Sistema Único de Saúde (SUS), que por sua vez, paga o valor do custo daquele leito para o hospital. Na Santa Casa, o convênio do SUS para leitos de enfermaria e da Unidade de Tratamento Intensiva (UTI) é feito com o Governo Estadual, que é o responsável pelo pagamento, por meio da 4ª Regional de Saúde. No momento, não há convênio diretamente com o Governo Federal.

O Governo do Paraná paga para cada leito de enfermaria para pacientes com Covid-19, R$ 300 por dia. Já para leitos de UTI, o valor diário sobe para R$ 1.600. A dificuldade de pagamento destes leitos também foi citada nesta semana pelo diretor da 4ª Regional de Saúde, Walter Trevisan, que comentou a dificuldade de repasse ao estado, por parte do Ministério da Saúde, de valores que seriam encaminhados a hospitais filantrópicos. “Nós tínhamos, por exemplo, na Santa Casa, dois ou quatro leitos de respiradores que era para paciente que estava no ambulatório da Santa Casa e a Santa Casa recebia para esses pacientes. Infelizmente, hoje esses pacientes com ventilação mecânica que tem ali, esses leitos foram desabilitados pelo Ministério. Foram desabilitados e a gente não recebeu nenhuma orientação do porquê”, contou Walter.

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Enquanto os pagamentos não chegam, a Santa Casa de Irati reorganiza sua estrutura para aumentar o número de vagas no hospital. Desde o dia 8 de março, houve a troca das vagas de UTI Geral para UTI Covid. A inversão de UTI fez com que o hospital conseguisse mais oito vagas de UTI Covid e mais sete de leitos na enfermaria.

Segundo Sidnei, o aumento de vagas surgiu apenas neste momento porque a estrutura do hospital não estava preparada para a demanda. Por ser uma estrutura antiga, foi preciso uma organização estratégica para que a troca ocorresse de forma segura. “Os leitos de Covid têm que estar isolados de todos os demais leitos do hospital. É uma doença altamente contagiosa, então não temos como estar ampliando leitos e colocando em risco outros pacientes que necessitam por atendimento. Tem que ter todo esse cuidado com a logística e com a estrutura fica do hospital, porque senão, se nós simplesmente for abrindo leito e colocando os pacientes, sem ter esses cuidados, daqui a pouco nós vamos estar, além de não poder estar dando o tratamento adequado, vamos estar contaminando outros pacientes”, disse. 

A Santa Casa conseguiu habilitar os leitos no SUS, para poder receber o valor desses leitos pelo Governo Estadual. Mas além do atraso no pagamento, a Santa Casa tem enfrentado a falta de repasse de medicamentos, principalmente, de sedativos para pacientes que são entubados nos leitos de UTI Covid. Um dos principais motivos é que os estados estão com dificuldade de comprar os medicamentos, que possuem grande procura e tiveram aumento dos preços durante o último ano. 

O diretor explicou que um dos sedativos usados chegou a subir mais de sete vezes no último ano, fazendo que apenas um medicamento usado em um paciente tenha o custo diário de R$ 2.700. “Um dos medicamentos - que é o principal medicamento para manter o paciente sedado, chamado Rocurônio ou Atracúrio, que substitui - antes da pandemia, nós pagávamos R$ 23 na ampola. O paciente que está entubado usa 15 ampolas por dia. E como é um paciente que está num coma induzido, ele necessita dessa medicação para se manter sedado. Esse medicamento que custava R$ 23, hoje está custando R$ 180”, relata Sidnei. 

O aumento de medicamentos, antibióticos, anticoagulantes, oxigênio e outros equipamentos e materiais, aumentaram o valor para conseguir manter um paciente internado no hospital, mesmo que o repasse estadual continue o mesmo. “O custo diário de um paciente UTI Covid hoje está custando R$ 4 mil. Isso de custo, sem nenhuma margem de lucro em cima de paciente, em virtude do aumento de medicamento e materiais que é usado no tratamento”, disse o diretor do hospital. 

A falta de medicamento fez com que a direção da Santa Casa entrasse em contato com a 4ª Regional de Saúde, que providenciou por meio do Governo do Estado, a entrega de 320 ampolas de Atracúrio nesta semana. Entretanto, a quantidade deverá durar apenas uma semana. “Para mais uma semana a medicação está garantida”, explica o diretor. 

O provedor da Santa Casa de Irati, Ladislao Obrzut, relata que com o aumento de leitos, há mais necessidade de medicamentos. Por isso, municípios tem acionado as Secretarias de Saúde para enviarem a medicação em estoque para o hospital. “Se nós tivermos os 12 leitos cheios com paciente intubado, nós vamos ter um desgaste bem maior de medicamento do que estamos recebendo. Tivemos também uma movimentação, à parte, algumas Secretarias de Saúde que tem esse medicamento vão colocar a doação para Santa Casa para que esses medicamentos não faltem”, conta. 

A dificuldade burocrática também tem sido impeditiva para prefeituras comprarem os medicamentos. Como os leitos estão cadastrados como sendo dos hospitais filantrópicos e não de hospitais municipais, não há preferência na compra. “A prefeitura não conseguiu nem fazer a cotação. Como está em falta, o setor de compra [das prefeituras] me repassou a informação que eles não conseguiram nem comprar a medicação. Tem mais um detalhe. Pelo fato de a prefeitura não ter leitos de Covid de UTI cadastrados, os fornecedores nem estão vendendo. Os fornecedores só estão vendendo para quem tem leitos de UTI habilitados”, explica Sidnei. 

A Santa Casa ainda tem enfrentado falta de luvas cirúrgicas, máscaras cirúrgicas e medicamento como o Fentanil, usado para ajudar a intubação de paciente. O Governo do Estado tem cogitado substituir a compra de medicações originais por outras medicações que poderiam fazer o mesmo efeito, mas que são mais baratas. No entanto, o provedor da Santa Casa alerta que esse outro tipo de medicação pode não ajudar neste momento. “O Dormonid que é o Midazolam, mais o Fentanil, são os medicamentos de início de intubação, início de colocação de paciente sedado. A partir daí você começa a usar medicamentos que vão poder fazer o relaxamento neuromuscular, que é o Atracúrio e o Rocurônio. Esse Atracúrio tem a especificidade de fazer o relaxamento da musculatura do diafragma, facilitando a respiração pulmonar através do aparelho. Existem outros medicamentos como o Quetamina, que tem a função de fazer a sedação, mas não faz esse relaxamento, então a dificuldade seria muito grande para o paciente. Vai haver um sofrimento um pouco maior para o paciente. O aparelho não vai fazer a oxigenação ideal, mas também tem essa possibilidade. Existe a medicação paralela, mas o melhor para ter o tratamento do paciente intubado, neste caso do Covid, seria o Rocurônio e Atracúrio que são as duas medicações que vão fazer o bloqueio neuromuscular, trazendo para isso a facilidade e conforto bem melhor para o doente que está intubado”, relata Ladislao. 

Por causa da falta de medicamentos, os hospitais filantrópicos já começaram a receber orientações para racionar medicamentos, caso não seja encontrado o medicamento prescrito. 

Outra ação que alguns órgãos estão realizando é denunciar os preços abusivos ao Ministério Público. O provedor conta que a Santa Casa cogita fazer a denúncia, mas alerta que não há tempo hábil de esperar pelo Poder Judiciário. “Só que não podemos ficar parados esperando haver um processo, haver ganho de causa e etc, com doente na minha porta, necessitando ser tratado”, disse. 

Com aumento de casos e dificuldades de medicamentos, os hospitais começam a organizar mais protocolos para os atendimentos para casos de agravamento. A Santa Casa de Irati deve discutir um novo protocolo, baseado no Hospital Universitário de Ponta Grossa. “Esse protocolo está sendo discutido a nível de HU [Hospital Universitário], em Ponta Grossa. Nós vamos discutir esse protocolo aqui na Santa Casa no sentido de poder fazer o tratamento ou a condição melhor de vida para o paciente, levando em consideração a questão de idade, a questão de tempo de vida, a questão das situações que podem ser envolvidas”, conta o provedor. 

A dificuldade é que com as novas variantes do coronavírus, mais pacientes jovens estão sendo internados. Na Santa Casa, a maioria dos pacientes tem entre 39 e 49 anos. O tempo de internamento também está aumentando para mais de 15 dias, como era inicialmente.

Profissionais: Outro desafio para os hospitais filantrópicos é a contratação de profissionais habilitados. “Primeiro, não temos o número de profissionais e a reposição com colegas de trabalho é muito difícil”, explica o provedor. Recentemente, a Santa Casa abriu um processo seletivo para farmacêutico que recebeu vários candidatos. Porém, alguns selecionados não se apresentaram para a entrevista e o único aprovado acabou desistindo porque conseguiu outra vaga em outro hospital. 

Há ainda dificuldades de encontrar médicos intensivistas. “A reposição agora será difícil de profissionais, principalmente de profissional capacitado para isso, no caso o intensivista. O que a Associação Brasileira de Medicina Intensivista colocou é o aumento de número de leitos para cada especialista. Até antes da pandemia era dez leitos para cada médico intensivista, agora são 15 leitos para cada médico intensivista”, explicou o provedor. 

O provedor destacou que a equipe da Santa Casa tem sido heroica já que há apenas um intensivista e mais a equipe do plantão médico atendendo os pacientes. O hospital tem realizado remanejamento de funcionários para suprir demandas, mas ainda tem cuidado para manter equipes diferentes que tratam casos da UTI Geral e UTI Covid. 

Segundo Ladislao, além da dificuldade do trabalho, há a sobrecarga emocional dos profissionais de saúde que muitas vezes são os últimos a ouvir um paciente antes de ser intubado, tendo que retransmitir as últimas mensagens às famílias. “São situações que bate muito com o psicológico do profissional da área de frente, que ele pouco pode fazer, o paciente está indo sendo entubado, vai ser colocado em coma induzido e as famílias vão sofrer com isso, com essa situação”, disse. 

Diretor da Santa Casa, Sidnei Barankievicz, ao lado do Provedor Ladislao Obrzut Neto. Foto: Jussara Harmuch