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Hemepar de Irati busca doadores que tiveram Covid-19 para ajudar em tratamento

UCT está buscando por doadores de plasma, que já tiveram Covid-19, para ajudar no tratamento de pessoas que ainda estão internadas. Estudo feito no Paraná mostra que pacientes que receberam plasma entre 24h e 48h após internamento tem 90% de chances de recuperação/Karin Franco, com reportagem de Paulo Sava e Rodrigo Zub

Prefeito Jorge Derbli foi um dos pacientes que teve Covid-19 que recebeu plasma superimune. Médica Doutora Larissa é responsável pela UCT de Irati. Foto: Jussara Harmuch

A Unidade de Coleta e Transfusão de Irati está buscando doadores de plasma, que já tenham sido contaminados por Covid-19 e estejam recuperados. O plasma doado por essas pessoas será usado no tratamento de pessoas internadas com a infecção. O Hemepar de Irati está com esta campanha desde o fim do ano passado e já conseguiu algumas doações. Contudo, elas ainda não são suficientes. Foram 30 bolsas de plasma coletadas, que foram usadas em 29 pacientes internados. Destes, 28 pacientes conseguiram se recuperar e apenas um faleceu porque possuía outras comorbidades.

Assim como na doação de sangue, é preciso repor as bolsas de plasma usadas no tratamento. Mas a dificuldade de ter doações de plasma fez com que apenas 14 bolsas fossem repostas. “De toda a campanha que fizemos desde o final de dezembro até agora, nós coletamos apenas 14 plasmas hiperimunes. Precisamos muito das pessoas que tiveram Covid para que vão até a nossa unidade, agendem um horário. Toda quinta-feira de manhã, a gente está fazendo essa coleta”, conta a médica responsável pela Unidade de Coleta e Transfusão de Irati, Larissa Mazepa. 

O plasma coletado é usado nos pacientes com Covid-19 que estão internados para diminuir os riscos de complicação da doença. “O plasma hiperimune é uma bolsa de plasma aonde tem os anticorpos contra o Covid de pessoas que já passaram pela doença e desenvolveram esses anticorpos. No início da doença das pessoas que são acometidas com maior gravidade, que precisam de internamento, a gente passa essa bolsa de plasma hiperimune para que eles tenham um plus a mais de anticorpos dentro do seu organismo e que possam combater a doença sem precisar intubação, sem precisar passar por uma maior gravidade da doença”, explica a médica. 

Entretanto, há dificuldade de conseguir doadores porque muitas pessoas ficam com receio de revelar que tiveram a Covid-19 e acham que sua doação poderá ser descartada. “Esse é o nosso maior problema. É a falta de informação de pessoas que pensam que vão lá e que vão ser de alguma forma colocadas de lado porque tiveram Covid. E isso não é verdade. A gente quase que estende um tapete vermelho para as pessoas que tiveram Covid porque a gente sabe que muitas pessoas se salvaram graças a esse plasma hiperimune”, afirma Larissa. 

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Outra dificuldade é em relação aos critérios para quem pode doar [veja no final da matéria] que podem limitar a quantidade de doações. Um dos exemplos é de mulheres que já tiveram alguma gestação em sua vida. Por causa de ter tido uma gestação, elas não podem doar o plasma. Se doarem, o corpo da pessoa que recebeu a doação pode rejeitar o plasma. “Isso limita infelizmente que as mulheres possam doar. Somente mulheres que não tiveram gestação nenhuma podem doar plasma hiperimune porque dentro do plasma existem anticorpos e esses anticorpos, para as mulheres que tiveram gestação, se os seus filhos foram de outra tipagem sanguínea, infelizmente, elas adquiriram anticorpos para este outro tipo de sangue. Por isso que o plasma das mulheres que tiveram gestação não é utilizado porque além do anticorpo do Covid, existem outros anticorpos e isso faz com que se tenha maior chance de fazer reação transfusional”, explica. 

A identificação da doação também é um receio entre os possíveis doadores. Segundo a médica, a doação é anônima. “A partir do momento que saem as bolsas de sangue do Hemepar, essas bolsas de sangue vão para o processamento e quando elas retornam, elas retornam com outros números. É muito difícil pra nós mesmos rastrearmos essas bolsas. Então as pessoas não vão saber quem doou, como que doou e quando doou. Só vão receber o benefício dessa doação”, disse a médica. A doação de plasma funciona como a doação de sangue. A pessoa deve se enquadrar nos requisitos para doação e ir até o banco de sangue de Irati. Ali, será coletado cerca de 420 ml a 470 ml de sangue. 

Após a doação, a bolsa de sangue será enviada para Curitiba, onde é feito o processamento do sangue e obtido o plasma. “Essa bolsa que é coletada aqui vai em uma caixa térmica, diminuindo a temperatura dela, até chegar no Hemepar a 10°C. Todas as bolsas a 10°C. Chegando lá, ocorre um processo de centrifugação que separa a parte branca da parte vermelha. A parte vermelha são os concentrados de hemácia e a parte branca é o plasma. Dentro desse plasma é onde estão os anticorpos. Através de um aparelho, é sugado somente a parte branca e é formado uma nova bolsinha de aproximadamente de 200ml a 230ml. A doação é de 450ml a 500 ml. E o plasma que retorna para nós vem em bolsas de 200ml a 230ml. E que é passado para o paciente que tem a Covid-19”, relata Larissa. 

O processo de logística também limita as doações, que podem ser feitas somente nas quintas-feiras pela manhã, e no número limitado de oito doações por dia. “É uma logística bem importante que temos que fazer com todos do banco de sangue. A gente faz uma união para poder coletar esse plasma. Esse plasma tem que ser coletado em uma hora, processado em 30 minutos, e encaminhado para Curitiba, o mais breve possível porque senão ele perde o prazo de validade e não é possível mais fazer plasma, ele só serve como concentrado de hemácia. Temos esse curto período de tempo, por isso conseguimos coletar somente oito bolsas por vez”, explica. 

Tratamento: Os estudos para a realização deste tratamento no Paraná iniciaram no Hemepar estadual com pacientes de Curitiba. “A doutora Claudia, que é a nossa chefe maior do Hemepar, ela é a diretora técnica de todo o Hemepar do Paraná, é hematologista. Assim que a Sars-Cov-2 entrou no nosso meio, ela iniciou o estudo com plasma hiperimune que ela já tinha para outra doença, ela migrou para o Sars-Cov-2 e começou esse estudo do plasma hiperimune fazendo em doentes de Curitiba, a princípio no Hospital de Clínicas. Como 98% dos pacientes que receberam plasma hiperimune nos primeiros seis meses se saíram bem, ela decidiu abrir para todo o Paraná. Para que o plasma hiperimune pudesse ser usado em Irati, a gente precisava que alguém tivesse a especialização de hemoterapia. E justamente em novembro, eu recebi o diploma de especialista em hemoterapia e com isso consegui abrir as portas para que a 4ª Regional de Saúde pudesse estar recebendo plasma hiperimune e pudesse estar usando nos pacientes daqui de Irati”, conta Larissa. 

A médica ainda destaca que o estudo, que ainda está em andamento, já observou que se o paciente recebe o tratamento de plasma entre 24h e 48h do início do internamento, ele possui 90% de chances de se sair bem na recuperação da doença. “Porque ele ainda não tem anticorpos contra a Covid, porém estamos fornecendo uma leva maior de anticorpos, que o doador doou para ele, e com isso, não dá tempo para que o vírus se replique rapidamente e leva à gravidade da doença”, conta. 

O estudo é um dos pioneiros no Brasil para este tipo de tratamento e os resultados da primeira fase do trabalho devem ser publicados dentro de um ano. Uma das pessoas que recebeu o tratamento de plasma foi o prefeito de Irati, Jorge Derbli, que esteve internado no fim do ano passado. Ele recebeu duas bolsas de plasma hiperimune nas primeiras 48 horas de internamento. “O período que tive internado na Santa Casa, além de todo o protocolo de medicação, ainda recebi essa transfusão dessas duas bolsas de plasma que ajudou muito na minha recuperação”, disse. 

Além de pacientes de Irati, também receberam o tratamento pacientes de Fernandes Pinheiro e Teixeira Soares. “Gostaria de convidar essas pessoas, não só os iratienses, mas as pessoas de outros municípios para virem doar o plasma hiperimune. É uma horinha do seu tempo. Eu tenho pedido até para os patrões liberarem os seus funcionários para que possam fazer essa doação”, disse. 

Doações: As doações são realizadas todas as quintas-feiras, das 8 às 9h. Para doar, é preciso agendar o horário de coleta pelos telefones (42) 3422-3119 ou pelo WhatsApp, no número (42) 9-9955-3539.

Quem pode doar plasma?

- Ter entre 18 a 59 anos

- Levar o laudo positivo para Covid-19, mostrando que teve a doença

- Pessoas que tiveram Covid-19 nos últimos 45 a 180 dias

- Estar sem sintomas entre os últimos 30 e 45 dias, com uma recuperação plena da doença

- Não podem ter passado por intubação no período da doença

- Mulheres que não tiveram gestação ou aborto. Mulheres que tiveram alguma gestação (independente do tempo) não se enquadram na doação.

- Pesar mais de 50kg

- Não ter tido: sífilis, doença de Chagas, malária, hepatite B, hepatite C, HIV e o vírus do HTLV

- Nunca ter recebido transfusão sanguínea

- Estar bem alimentado

- Não ter tomado vacina nos últimos dias

Doação de sangue: As doações de sangue também diminuíram entre o fim de 2020 e o início deste ano. “Nós tivemos uma queda muita brusca nas doações de sangue, principalmente no final do ano passado e no início de janeiro, coisas que a gente não via nos outros anos e infelizmente nesse ano foi uma redução bastante importante”, disse. 

Felizmente em Irati a redução das bolsas não teve um grande impacto, mas em outras regiões houve dificuldades. “Nós até não sentimos tanto essa redução porque a nossa utilização não é tão grande, mas Curitiba, a regional de Cascavel e Foz de Iguaçu infelizmente tiveram que estar se dividindo bolsas de sangue porque a gente teve uma baixa muito grande”, conta. 

As coletas de sangue acontecem normalmente, de segunda a sexta-feira, à tarde, mas devem ser agendadas antecipadamente.

Doação de medula óssea: O Hemepar de Irati também está realizando uma campanha para a doação de medula óssea, já que há uma menina que está precisando de doação. No dia 23 de fevereiro será realizada uma campanha, com coleta durante todo o dia, das 8 às 16h.

Na coleta, sertão colhidas amostras dos doadores. “Apenas 5ml de sangue periférico, do braço, que vai para servir de amostra. Esse sangue é estudado, é feito uma fenotipagem, para que consigam-se encontrar receptores compatíveis e assim a pessoa que for compatível poder doar a sua medula óssea. Não é da coluna espinhal. É do osso da bacia ou através de sangue periférico”, afirma Larissa.