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Enfermeira relata dificuldades para enfrentar a Covid-19

Luciane Batista teve febre, vômito e chegou a perder 15 kg por conta da doença, que comprometeu 80% dos seus pulmões/Paulo Henrique Sava

Na foto, enfermeira Luciane Batista mostra como é feito o teste RT-PCR para detecção da Covid-19. Foto: Paulo Henrique Sava

O medo de contrair a Covid-19 afetou profundamente a enfermeira Luciane Batista, de 45 anos, responsável pela Unidade Sentinela, onde são atendidos casos suspeitos e confirmados da doença em Irati. Ouvir as dificuldades relatadas pelos pacientes foi duro, mas quando os sintomas foram vivenciados na pele ou na própria família, ela percebeu ainda mais a gravidade do problema. Em entrevista ao programa Espaço Cidadão da Super Najuá, a enfermeira, que atua na área da saúde há 20 anos e foi infectada pelo coronavírus, relatou que, nos primeiros dias, chegou a perder 15 kg por não conseguir se alimentar. Luciane contou que seu marido fez os exames primeiro e também testou positivo, apresentando apenas irritação na garganta. Já ela, teve sintomas graves, febre alta, vômito frequente e falta de ar.

“Chegava a ter tremores de frio e cinco minutos depois minha temperatura ia para 40 graus. Eu não conseguia manter nada no estômago, tudo o que eu comia vomitava. A medicação para febre era muito pesada e tinha dificuldade respiratória à noite, sudorese intensa e um mal-estar. Eu achava que era o ‘chamado da morte’. Meu corpo não respondia de jeito nenhum à medicação, mesmo eu me cuidando”, frisou a enfermeira, e relatou que as dificuldades respiratórias começaram a partir do 17º dia de infecção.

Luciane, que está um pouco acima do peso, teve 80% do pulmão comprometido pela Covid-19. Tomou medicamentos como Azitromicina e Cloroquina. “Quando tomei houve uma melhora grande no meu quadro, mas acho que a minha procura novamente pela unidade foi tardia. Passei mal na terça-feira e comecei com a cloroquina.; na quinta-feira tive um período de temperatura acima de 40 graus; na sexta-feira, durante o banho, quase tive uma parada respiratória porque não conseguia respirar com o vapor do chuveiro. No sábado, por volta das 09 horas fui encaminhada ao PA, onde foi solicitada a tomografia. 80% do pulmão estava tomado pela Covid-19 e isso sem que eu sentisse muita falta de ar antes”, contou.

Devido à gravidade, foi encaminhada com urgência para a Santa Casa. No hospital, médicos solicitaram que fosse feita uma coleta de sangue na artéria para aferir a quantidade de oxigênio no organismo. Caso ela tivesse uma parada respiratória, deveria ser entubada imediatamente. “Se eu não puder lutar contra a Covid-19, o respirador não vai fazer isto por mim. Preciso que o meu organismo, a minha fé e a coragem digam para Deus que vamos vencer a Covid-19. Eu pensava positivo e me questionava sobre como seria uma derrota para o vírus e o que vai ser do meu filho. Eu tenho que lutar”, relata, acreditando que a sua força de vontade evitaram a progressão da doença neste momento e, consequentemente, a entubação.

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Foi necessária uma transferida para Laranjeiras do Sul, onde permaneceu internada. “Fiquei internada e no domingo e fui transferida para Laranjeiras do Sul, apresentei melhoras e retornei, mas continuei com muitos sintomas da Covid-19, por isto fiquei um bom tempo afastada até conseguir voltar. A Covid-19 deixa sequelas, é a pura verdade. Graças a Deus as minhas sequelas foram só pulmonares. Eu tenho muita dificuldade respiratória, cansaço e dor muscular em locais que nem imaginava que iria doer”, pontuou.

Manter o isolamento acabou se tornando um desafio. Para a enfermeira, acostumada ao dia-a-dia do posto de saúde, permanecer dentro de casa provocou-lhe depressão. “O máximo que eu fazia era sair na calçada em frente à minha casa, mas não convivi com outros familiares, não frequentei supermercado, não viajei nem frequentei festa nenhuma, eu permaneci em isolamento, pois não queria transmitir (a Covid-19) para outras pessoas que tivessem comorbidades, como diabetes e hipertensão, mais suscetíveis ao coronavírus do que eu. Antes eu não imaginava que a doença em mim traria sintomas pesados”, comentou.

Durante o período em que esteve de quarentena, Luciane aproveitou para aprimorar seus dotes culinários e colocar suas leituras em dia. “Talvez foi um tempo para a gente mesmo, com os cuidados de casa, organizando e conversando por telefone com amigos e familiares, fazendo vídeo chamadas, estudando, pois estou concluindo uma pós-graduação novamente. Nós da enfermagem temos que buscar novos conhecimentos".

Devido às sequelas, Luciane se desloca apenas para o trabalho. Ela faz fisioterapia para recuperar a capacidade pulmonar e tenta evitar contrair um resfriado ou uma gripe. Estando no grupo 1, prioritário, já recebeu a vacina Coronavac. “O Ministério da Saúde é que coloca quem serão as primeiras pessoas a tomar a vacina para depois ir para a população inteira. Não é o prefeito, não são as meninas da epidemiologia e nem da enfermagem, mas sim o Ministério da Saúde que determina quem pode tomar”, comentou.

ATENDIMENTO COVID EM IRATI: A Unidade Sentinela voltou a funcionar no Posto de Saúde François Abib depois que o Ginásio de Esportes Fortunato Colaço Vaz, no Rio Bonito, foi inundado pelas chuvas da última segunda-feira, 18. O funcionamento é de segunda a sexta-feira das 08h às 17 horas, para casos leves. Após este horário e nos finais de semana, os pacientes devem se dirigir ao Pronto Atendimento da Vila São João. Casos de emergência são atendidos no PA em qualquer horário. “São aqueles pacientes que já positivaram para Covid-19 e estão com quadro grave, como insuficiência respiratória ou vômito, que vão para o PA. As pessoas que precisarem de um primeiro atendimento ou positivaram para Covid-19 novamente, porém não estão com quadro grave, retornam para a gente”, informa a enfermeira.

Mesmo que o período de isolamento pré-determinado tenha cessado, se o paciente ainda apresentar sintomas, não será liberado para retomar as atividades. “Ele volta para uma nova consulta e, se necessário, vai pegar uma nova medicação e um novo afastamento até não apresentar sintomas. Enquanto a pessoa estiver com sintomas de Covid-19, não poderá retornar ao trabalho porque poderá ainda estar transmitindo o vírus”, explicou.

Na opinião da enfermeira, é preciso que a população tenha consciência da gravidade da Covid-19. “Eu, indo para Laranjeiras do Sul, sabia que, se não conseguisse lutar e viesse a óbito, eu viria em um saco preto e seria enterrada em questão de meia a uma hora, ninguém ia poder me dar tchau, abraçar e olhar, eu estaria dentro de um caixão, seria enterrada  Quinze dias depois ninguém se lembraria de mim, a não ser a família. A doença é grave e temos que nos cuidar, somos nós que fazemos a definição do vírus. Se continuarmos nos cuidando e nos protegendo, (a pandemia) vai parar, mas vai da consciência de cada um”, finalizou.

Unidade Sentinela voltou a funcionar no Posto de Saúde François Abib, no Conjunto Joaquim Zarpellon. Foto: Paulo Henrique Sava