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Conheça os desafios e o dia a dia de um caminhoneiro

Sandro Bonfim conta um pouco de sua experiência de mais de 30 anos como caminhoneiro

Na foto, Sandro aparece ao lado da esposa Márcia. Foto Arquivo pessoal 

Há mais de 30 anos, Sandro Bonfim atravessa as estradas brasileiras levando diversas mercadorias com caminhão graneleiro. Os itens são variados e vão desde feijão a madeira e compensados. O ofício é herança de família. “Desde o lado do meu pai, desde o meu falecido avô. Eram todos motoristas, meu pai, meus tios, irmãos de meu pai. Meu irmão é motorista, então a gente vai seguindo uma linha”, conta. 

Hoje, o destino mais comum tem sido o nordeste, com cargas para Bahia e Paraíba. Mas com a pandemia, o ritmo mudou. “Hoje, dependendo da carga que estamos carregando, ela se tornou um pouquinho menos viável, porque é exportação. Ela fechou em muitos países com todo o Brasil. E como trabalhamos com graneleireiro, geralmente é grão, exportação e de cinco meses para cá ficou bem escasso. O pouco que tem, as empresas grandes têm a capacidade de transportar essas cargas, então ficamos na sobra”, disse. 

Mas não é apenas isso que mudou no dia a dia das estradas brasileiras. Antes mesmo da pandemia, a insegurança de ser assaltado na estrada diminuiu o companheirismo. “É escasso o companheirismo na estrada. Até se tivéssemos mais união, mais companheirismo, nossa profissão seria outra, seria outro patamar de sobrevivência. Mas hoje está complicado. No meu tempo que viajava com meu pai, quando era mais novo é uma diferença enorme. A gente via um companheiro quebrado parado, sem problema, tentava ajudar. Hoje raramente alguém para por medo de assalto, insegurança, e dentre outras coisas mais. Então, hoje, o companheirismo na estrada só se for bem conhecido mesmo”, relata. 

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Essa não é a única dificuldade. No Paraná, caminhoneiros ainda sofrem com o pedágio. “Nós sofremos um pouco com a questão de pedágio e combustível. É o vilão dos transportes. Onde encarece tudo. Assim como encarece o petróleo, já encarece tudo no mercado para o consumidor. Mas o pedágio, exclusivamente do Paraná, é o mais caro que conheço. No nordeste é como se fosse para Santa Catarina, R$3, R$4 o eixo. O caminhão se paga por eixo, não por veículo. Aqui no Paraná tem pedágio que paga R$120, R$125”, disse. 

Outra situação que acontece nas estradas é a opção de viajar à noite porque as altas temperaturas do asfalto durante o dia podem desgastar os pneus. “Até para diminuir o desgaste do equipamento da gente. Porque hoje os insumos de caminhão, a reposição de peças e essas coisas, está meio complicado. Nos horários de maior temperatura, eu paro, faço a minha alimentação nessa hora, espero o caminhão esfriar, dar aquela amenizada, daí eu prossigo até mais tarde”, relata. 

A estrada ainda reservou situações inusitadas para Sandro. Uma delas aconteceu em Pernambuco onde ele chegou a ser preso por desacato. “Fiquei preso porque faltei com um pouquinho de respeito com a autoridade”, disse. 

Sandro ainda teve perdas materiais. Em 2002, ele chegou a ter o caminhão roubado em São Paulo, quando não estava nele. “Foi recuperado. Eles acharam que era um caminhão e não era. Acharam que era um caminhão mais novo e era bem velhinho”, contou. 

Apesar das aventuras, o dia a dia dos caminhoneiros são mais normais do que muitos imaginam. As refeições são feitas na estrada, já que o caminhão é equipado com uma estrutura pronta, com geladeira e fogareiro. “O caminhão é minha casa. Ali tem minha cama e tudo, é minha segunda residência”, disse. 

Cada viagem dura em média 20 a 30 dias, mas houve situações em que já foram 120 sem voltar para casa, em Irati. Para ele, um dos maiores desafios é a saudade. “É mais pesado que a carga que a gente leva”, disse. 

Sandro e a filha Luna. Foto Arquivo Pessoal

Foto Arquivo Pessoal