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Casamento de três casais de idosos do Lar dos Velhinhos de Rio Azul é tema de curta

Curta-metragem mostra a história dos três casais que se conheceram no local e se casaram em 2019/Karin Franco, com reportagem de Paulo Sava

Foto: Divulgação

Um asilo pode significar o fim da vida para muitas pessoas. Mas para três casais do Lar dos Velhinhos, de Rio Azul, o local é sinônimo do início de um novo capítulo em suas vidas. Leal e Conceição, Sebastião e Olinda, e José e Antônia, se conheceram, namoraram e casaram no local.

Agora, suas histórias foram contadas em um curta-metragem chamado "O Amor Está no Lar", lançado no fim de 2020, que também conta detalhes dos casamentos ocorridos no mesmo dia. O enfermeiro e responsável técnico pelo Lar, Talbian Raony Przybysz, conta que o projeto surgiu logo no início dos preparativos dos casamentos. “Inicialmente, quando a [produtora] Multimídia, de Rio Azul, se colocou à disposição para estar filmando todo o casamento, sem cobrar o evento, pela gravação, pelo trabalho deles, a gente agradeceu. E daí veio a ideia de aproveitar esse material para mais tarde transformar em um longa-metragem. E eles toparam”, contou. 

Mas a pandemia acabou adiando os planos. “Com a pandemia, isso dificultou. Tanto que não se desenrolou muito o projeto. Mas no mês de dezembro abriu o edital da Lei Aldir Blanc, aqui em Rio Azul, e entre os projetos que poderiam estar sendo inscritos tinha o audiovisual, que seria o curta-metragem de no mínimo 15 minutos”, explicou. 

Talbian entrou em contato com a produtora novamente, que topou participar do projeto. Por meio da Lei Aldir Blanc, foi possível remunerar o trabalho da produtora, em meio a uma pandemia, com R$ 3 mil. “Até como uma forma de eles estarem recebendo pelo trabalho deles, sem estar influenciando e impactando diretamente no bolso da instituição”, disse. 

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O curta traz a história dos três casais que se conheceram no asilo. O local possui dez casas, onde até quatro pessoas podem morar nela, formando praticamente uma pequena vila. O enfermeiro conta que o boato de namoro do primeiro casal, Leal e Conceição, começou aos poucos, até que a direção conversou com os dois que assumiram a relação e deram um ultimato. “Juntamente com psicólogo e assistente social, eles falaram: ‘Queremos passar uma noite junto e se o senhor não deixar, nós vamos fugir’”, contou rindo. 

O interesse amoroso começou em 2018, logo quando Leal chegou ao asilo e conheceu Conceição, que já morava no local há dez anos. “A primeira vez que eu vim conhecer o lar, eu já vi ela. Já fiquei meio de olho nela. Na segunda vez, quando vim morar aqui, eu estava carpindo essa beirada aqui, ela perguntou se não dava para carpir o jardim para ela. Eu disse: ‘Carpo’. E daí daquele dia, fomos conversando”, disse Leal no curta-metragem. 

Com o passar dos meses, o casal foi se aproximando e acabou morando juntos, na mesma casa durante mais de um ano. Enquanto isso, o asilo começava a ter outros casais. O segundo casal a se assumir foi Sebastião e Olinda. O asilo em Rio Azul foi o local que os dois conseguiram se encontrar, mesmo sendo de Mallet. Talbian chama atenção que a entrada dos dois no asilo em 2016 teve poucos dias de diferença. “Foram poucos dias de diferença entre a chegada de um ou de outro. E eles não se conheciam em Mallet. Acabaram se conhecerem aqui. Tão logo o Leal e a Conceição assumiram o namoro de uma forma de até morar junto, a Olinda e o Sebastião que já estava numa paquera e também assumiram o romance”, disse. 

O encontro dos dois também envolveu a jardinagem. “Eu estava carpindo e olhando para cá. Fiquei olhando. ‘Olha, essa menina é bonita, eu vou casar com ela’. Eu estava carpindo lá, ela estava olhando da janela também e daí foi que nós nos achamos”, disse Sebastião. “Gostei dele e estamos vivendo. Agora mês que vem vai fazer um ano que estamos casados”, contou Olinda. 

O último casal a se conhecer foi José e Antônia. Ela conta quer inicialmente não deu muito interesse para José. “Eu não estava querendo muito namorar ele porque não queria casar tão logo. Mas ele foi vindo e vindo. Daí outros dias, sentava na área, às vezes, sentava aqui dentro, do lado de fora. Uma vez ele quase embrabeceu: ‘Às vezes, não vou chegar na tua casa’. Saiu, ficou um dia. No outro dia veio de novo. E foi vindo, até que um dia firmamos o namoro e casamos”, disse Antônia. “Quando eu vi ela, a Antoninha, pela primeira vez eu achei ela bonita. Eu gostei dela. Daí casamos”, conta José. 

Talbian conta que a resistência de Antônia a José tinha uma razão: havia pouco tempo que perdera o marido. “No começo, ela estava mais resistente porque quando ela chegou na instituição, ela era casada, ela veio com o marido e ele acabou falecendo dois meses depois. Ela vivia um certo luto, quando conheceu o José e aí pela insistência dele, com o passar do tempo, ela acabou cedendo”, explicou. 

Com os namoros assumidos, a ideia de casar surgiu espontaneamente dos casais. “Dois casais logo começaram a namorar e levantaram essa vontade de casar. E o primeiro casal, que já estava morando junto, não queria fazer o casamento, mas o padre conversou com eles que não poderia estar dando comunhão para eles se eles não cassassem e eles decidiram por casar também”, disse Talbian. 

A princípio, os casamentos aconteceriam separados na instituição em três datas diferentes. Mas a indisponibilidade do padre mudou os planos dos noivos. “O fato de serem os três no mesmo dia também foi uma consequência de um período que Rio Azul tem muitos casamentos e que o padre estava com a agenda um pouco cheia para conseguir fazer três casamentos em datas diferentes. Se decidiu por fazer em uma única data e como a instituição ficaria pequena para atender três casamentos, convidados e tal, a gente decidiu por fazer na igreja da cidade”, conta o responsável. 

Com a data marcada, muitas pessoas da região ajudaram os noivos e convidados a realizar o casamento. Muitos disponibilizaram os próprios serviços. “Isso tudo foi uma grande ajuda. O pessoal tanto de Rio Azul, como de Mallet, teve gente de Rebouças envolvida, o pessoal se colocando à disposição para doar ou para se doar para esse dia. O lar não teve custo nenhum. Foi tudo através de pessoas que se colocaram à disposição, colocaram seus serviços à disposição”, disse. 

Assim, em 2019, os noivos finalmente conseguiram se casar. “Eles tiveram um dia completo. Desde as noivas indo para os salões cedo, os noivos durante a semana indo provar a roupa, indo cortar cabelo. Os outros moradores e moradoras recebendo o pessoal dos salões para fazer unha, cabelo. Foi bem bacana”, conta. 

Com um ano de casados, Talbian conta que é possível ver diferenças nos casais. “Em relação ao casal que já estava junto, porque eles já moravam junto há mais de um ano, eu acho que mudou mais em relação à cumplicidade, em saber que eles têm benção do padre, eles estiveram na igreja, podem receber a comunhão. Então, eu vejo até como um certo alívio para eles por serem abençoados mais do que antes”, relata. 

A proximidade também é outra característica que surgiu entre os casais. “Em relação aos outros casais, o que mudou foi principalmente em relação à proximidade porque enquanto namorados, eles se visitavam, eles passavam períodos juntos aqui na instituição, seja nas áreas comuns, seja lá na sala da casa vendo TV. Com os casamentos, eles passaram a ter a possibilidade de dividir a mesma cama, na mesma casa, no mesmo quarto. Notamos essa mudança, de uma maneira geral, nessa cumplicidade que um casal que está convivendo mais próximo tende a ser maior”, disse. 

Ele ainda destaca que há um acompanhamento da instituição no relacionamento dos casais. “O acompanhamento, o cuidado, a orientação, o gerenciamento em relação às pequenas brigas entre eles, as situações externas, às vezes, um ou outro morador acaba se envolvendo de outra forma. Mais no sentido geral de gerenciar, acompanhar dessa forma”, explica. 

O curta-metragem pode ser assistido on-line no canal da prefeitura de Rio Azul, neste link: https://youtu.be/anuN96oejGc

Pandemia

Com a pandemia, passeios e visitas que antes eram regulares, tiveram que ser reduzidos. Até pouco tempo, algumas visitas eram autorizadas apenas uma vez ao mês, durante 30 minutos, em um local amplo e com as pessoas de máscara. 

Mas o aumento de casos de Covid-19 em Rio Azul modificou a situação. “Agora no mês de janeiro, nós suspendemos totalmente. No momento não está tendo visitas, até porque o número de casos em Rio Azul aumentou”, disse Talbian. 

A saída dos idosos do asilo também foi suspensa. Eles saem apenas para questões de saúde. “Quando eles retornaram, eles têm que ficar sozinhos na casa por 14 dias. Estamos com uma casa de isolamento que é uma casa eventualmente preparada para idosos que saem e voltam, ou idosos que acabam sendo acolhidos para morar agora na instituição. Durante a pandemia, tivemos seis casos de idosos que chegaram para morar”, conta. 

Todo cuidado tem trazido resultado porque o asilo não registrou nenhum caso de suspeita ou confirmado entre os idosos que moram no local. A casa de isolamento também foi preparada para receber algum idoso com Covid-19, caso tenha.

Mesmo assim, a equipe do asilo tem tomado cuidados redobrados para evitar que a contaminação chegue aos idosos. Além de mascaras, higiene das mãos e distanciamento, os funcionários têm realizado testes RT-PCR. “O problema hoje está do lado de fora. Ele está batendo na nossa porta. A partir do momento que na cidade aumenta o número de casos – nenhum funcionário mora aqui, temos uma vida lá fora – então podemos ser a porta de entrada para a doença”, afirma.