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Com mais 15h de duração, testemunhas de caso de feminicídio são ouvidas em 1º dia do júri popular

O júri do assassinato de Ivanilda Kanarski foi retomado na manhã de hoje com o depoimento do réu João Fernando Nedopetalski

Primeiro dia do Júri Popular teve duração de mais de 15 horas. Foto: Tadeu Stefaniak

O primeiro dia do júri popular de João Fernando Nedopetalski terminou apenas na madrugada de quinta-feira (09), com mais de 15 horas de júri. Os trabalhos iniciaram na quarta-feira (09), às 9h, com participação das testemunhas do caso, que foram ouvidas até às 0h08 de quinta-feira (10), quando os trabalhos foram interrompidos.

O júri foi retomado na manhã de hoje com o depoimento do réu. Em resposta aos questionamentos realizados pelo juiz, Dawber Gontijo Santos, ele negou a denúncia de estupro, a qual veio depois do assassinato e também negou a tentativa de homicídio contra o irmão da vítima. O advogado da defesa comunicou ao presidente do júri de que o réu não vai responder as perguntas feitas pela promotoria e pelos advogados de acusação. Neste momento, ele está respondendo os questionamentos dos advogados de defesa. A expectativa de que a explanação das teses dos advogados de acusação e defesa seja realizada ainda hoje, além da sentença.

Denúncia

João Fernando é acusado da morte de sua esposa, Ivanilda Kanarski, de 30 anos, e responde por feminicídio, que é o crime cometido contra mulheres, que tem como causas a violência doméstica ou discriminação de gênero. No dia 26 de julho de 2018, ele atingiu a vítima com tiros no Parque Aquático, em Irati. Ele também responde por tentativa de homicídio do irmão de Ivanilda, Romildo Kanarski.

Devido à pandemia do coronavírus, não foi permitida a entrada da imprensa e nem de expectadores. O júri está sendo transmitido de forma on-line pelo youtube.

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Escolha de jurados

Os trabalhos iniciaram com a escolha de jurados, com 35 pessoas sendo convocadas para fazer parte do júri popular. Os advogados da acusação e da defesa puderam dispensar três pessoas, para que não participassem do júri.

Uma das que foram dispensadas foi a psicóloga Rafaela Ferencz. Ela explica que assim que recebeu a convocação avisou ao oficial de Justiça sobre a impossibilidade de ser jurada. “Pela questão de que eu já tinha me manifestado sobre esse caso inúmeras vezes, desde que o crime ocorreu. Além disso, conheço a Franciele [dos Santos, cunhada da vítima] há algum tempo já porque nós erámos vizinhas lá em Engenheiro Gutierrez, desde que o crime ocorreu nós estreitamos nossas relações e eu tenho uma relação muito próxima com toda a família da vítima. Então, eu não poderia ser jurada”, explica. 

Após a dispensa dos candidatos a jurados, seis mulheres e um homem foram sorteados para compor o júri popular.

Testemunhas

A primeira testemunha a ser ouvida foi o irmão da Ivanilda, Romildo Kanarski. No seu depoimento de mais de duas horas, Romildo contou mais detalhes sobre os dias que antecederam ao crime e sobre informações da vítima, com a de um telefone. Segundo Romildo, o telefone de Ivanilda foi quebrado e no dia do crime ela não tinha aparelho. A defesa do réu argumentou que há três linhas de telefone no nome da vítima e que em um dos números há uma ligação, após o horário da morte de vítima. De acordo com depoimento de Romildo, um dos números é de um dos filhos dela.

A esposa de Romildo, Franciele dos Santos, foi convocada, mas não prestou depoimento nesta quarta-feira. O Ministério Público requereu a retirada da sua convocação porque houve percepção de que testemunhas estavam se comunicando. A retirada foi pedida para evitar a nulidade do processo. O depoimento que será considerado é o realizado em uma primeira fase do processo para outro juiz. Franciele também está grávida e prestes a ter o filho nos próximos dias. 

Logo após o depoimento de Romildo, o júri chegou a ser paralisado após o advogado de defesa, Jeffrey Chiquini, contestar que as testemunhas estavam tendo acesso ao que era dito nos depoimentos por meio da transmissão do YouTube. 

Resolvida a questão, o julgamento foi retomado com o depoimento do soldado José Mauro Bobrek que atendeu o caso. Ele relatou que uma pistola 6.35 calibre 22, com capacidade de dez tiros, foi apreendida e que o réu confessou que atirou na esposa. Ele ainda relatou que o réu confessou que o motivo foi que ela havia o traído e estava planejando, com seu suposto amante, a morte dele. O soldado contou que o réu disse que a arma foi comprada de terceiros, com objetivo de matá-la.

O Sargento da PM, Jaciel Visinoni, também falou sobre o atendimento. Ele confirmou as informações de que o réu confessou aos policiais que tinha comprado a arma com a intenção de se proteger e também matar a esposa.

Outro depoimento dado durante a tarde foi o do soldado Rodrigo Juliano, que no dia do crime deteve o réu na hora em que ele estava em luta corporal com Romildo. Ele é o policial que morava próximo ao Parque Aquático e que ouviu os disparos, indo até o local. 

Em seu depoimento, disse que João Fernando, pouco antes da luta corporal, estava com a arma de fogo em direção ao Romildo. Ele conta que ouviu três disparos e que no momento da apreensão, viu que uma das balas estava falhada, o que provocou o travamento da arma, destravada por ele. Durante o depoimento, o advogado de defesa apontou que houve contradição, já que em depoimentos anteriores não houve menção da bala que havia picotado.

O fim da tarde iniciou com o depoimento da irmã do réu, Célia Nedopetalski. Ela chegou a tentar a guarda dos dois filhos de Ivanilda, após a morte dela. No entanto, não conseguiu. Os filhos ainda estão sob a guarda de Romildo. Em seu depoimento, ela comentou que as crianças não têm contato com a família do réu e nem com o próprio réu. Ela também confirmou a informação de que Ivanilda estava traindo João Fernando e que teria ameaças de morte. Ainda disse que o réu, no dia do crime, teria saído de Curitiba para Irati, com o objetivo de buscar sua mudança para levar para a Capital.

Em seguida, uma inquilina do réu falou sobre a rotina do casal e do dia que Célia soube do crime. O ex-cunhado de João Fernando, também foi ouvido. Ele falou sobre a rotina do casal e confirmou a traição da vítima. Segundo ele, a própria vítima confessou para ele a traição, após ele ter encontrado uma foto em um computador, com declaração de amor.

Outro vizinho e conhecido do réu, também falou sobre a rotina da família e a convivência juntamente com eles. Ele ainda comentou sobre a possível traição de Ivanilda.

Durante a noite também foi ouvida a esposa do homem apontado como amante da vítima. Segundo o advogado de defesa, ela é autora de dois boletins de ocorrência que demonstram a tese de que Ivanilda pretendia, com a ajuda do amante, matar o réu e a testemunha. Um boletim traria a denúncia de um plano e outro boletim traria a denúncia de uma perseguição com tiros.

No depoimento, a testemunha demonstrou estar nervosa e chegou a se contradizer em alguns momentos. Logo no início, ela disse que os boletins tinham sido uma confusão de sua cabeça, que após suspeitar da traição, misturou informações e que os fatos dos boletins não aconteceram necessariamente. No caso do boletim de ocorrência sobre a perseguição com tiros, ela chegou a dizer que não houve tiros porque os policiais não encontraram nenhuma marca.

O advogado de defesa apontou contradições de informações do boletim e do depoimento que ela estava dando. Uma das contradições é que no boletim, a testemunha havia contado que descobriu a traição por mensagem de texto, mas no depoimento ela comentou que foi ouvindo uma conversa por telefone do seu marido com um amigo. O advogado ainda apontou que ela não mencionou o boletim em outros depoimentos. 

Com a confrontação do advogado, a testemunha continuou com algumas contradições. O juiz, então, informou que ela tem o direito de ficar em silêncio, para não produzir provas contra si. A informação foi dada porque a lei brasileira prevê que o ato de fazer uma denúncia que é falsa, ou seja, denunciar alguém que sabe que é inocente, é um crime e é passível de detenção. Com a informação, ela optou por ficar em silêncio quando permitida, apesar de continuar demonstrando confusão e contradições em algumas respostas.

O policial Denilson Bianco que realizou o boletim de ocorrência sobre a perseguição com tiros também foi ouvido. Ele contou que os policiais atenderam ao chamado feito pelo 190, onde havia a informação de um carro estava sendo perseguido por uma moto que atirava contra o veículo. Ele contou que chegou próximo ao local, onde uma mulher, aparentando estar nervosa, contou que o fato aconteceu porque descobriu a traição do marido com uma vizinha pelo WhatsApp e que na conversa havia a menção de realizar um atentado contra ela e o marido da vizinha.

Ele relatou que na realização deste boletim, a mulher mostrou conversas do WhatsApp com imagens printadas em folhas impressas, onde havia a cobrança da realização do atentado contra ela. Apesar de falar que não viu os nomes da conversa, o policial apontou que era Ivanilda cobrando o atentado, conforme informado pela testemunha que é mulher do suposto amante da vítima. Ele orientou a mulher a registrar um boletim de ocorrência na Polícia Civil. Recentemente, ele descobriu que, de fato, ela registrou um boletim de ocorrência sobre as ameaças.

O último a ser ouvido na noite foi o homem apontado de ser o amante de Ivanilda. No seu depoimento, ele negou ser amante da vítima. Também disse que saiu da casa de sua esposa, antes da morte de Ivanilda, por medo de que capangas do réu fossem o pegar e não por descoberta da traição com a vítima. A testemunha disse que soube disso por meio de boatos. Ele ainda acusou, sem apresentar provas, que o réu teria ameaçado ele de dentro da cadeia, por telefone. Questionado pelo advogado de defesa, disse que o telefone que recebeu a ligação estava quebrado. Ele também reiterou a versão de sua esposa, de que os boletins de ocorrência foram feitos a partir de informações confusas que ela recebeu.

Rua em frente ao Fórum de Irati foi interditada durante o andamento do julgamento. Foto: Tadeu Stefaniak