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Ação que questiona preços de soja em contratos pode ser arriscada, dizem especialistas

Representantes do mercado de soja alertam que o não cumprimento de contrato firmado por agricultores pode prejudica-los futuramente

Foto AEN

Para especialistas do mercado de soja, a ação de agricultores que questiona o preço de venda da soja em contratos firmados anteriormente é arriscada. 

O economista e analista de mercado, José Gilmar Carvalho de Oliveira, alerta que o não cumprimento do contrato pode dificultar negociações futuras de soja. “O que o produtor precisa tomar muito cuidado, na nossa região aqui, é que não podemos criar uma região no Brasil aonde os produtores falam e não cumprem contrato. Isso pode dificultar muito os negócios correntes, os negócios futuros, porque os bancos não têm muito dinheiro para financiar as lavouras. As lavouras estão muito caras para você fazer”, disse José Gilmar.

Na região, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Irati está auxiliando agricultores que firmaram algum contrato de venda de soja antes de seu plantio. Com a pandemia, o valor da saca de soja aumentou e fez com que agricultores procurassem a alternativa.

Mas para o representante da Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais, André Nassar, os agricultores não devem ter sucesso nesse questionamento. “Não faz sentido nenhum, não tem amparo jurídico, a meu ver não é nem correto essas lideranças de produtores defenderem renegociação de contrato porque o preço subiu. Teve momentos que ocorreu o contrário e não teve nenhum produtor que bateu na nossa porta querendo renegociar e nem tampouco a trading quis fazer qualquer negociação. Agora não é hora de negociar. Agora é hora de cumprir os contratos e evidentemente os produtores venderam muito bem, os preços foram muito bons independentemente do momento em quer eles venderam”, disse. 

José Gilmar explica que esses contratos foram feitos após o agricultor observar os custos de produção. “O produtor assim que consegue fechar os custos de produção dele, já começa a travar os preços de soja do ano seguinte. O que o produtor faz? Ele travando os custos de produção – normalmente é 30% da produção dele, um pouquinho mais – ele trava os custos e especula com o resto, ou seja, ele sempre vende e torce para o preço da soja subir porque ele vai ter mais soja para vender ao longo da safra dele. Ele vai estar pagando as contas dele com o contrato lá, ele acaba torcendo para a soja subir e fazer essas vendas para frente lá”, explica. 

Ele ainda explica que a tranding, que compra a soja do produtor, revende o produto na bolsa de valores. “Sempre que uma empresa vende um contrato de soja futuro de algum produtor, ela trava na bolsa, ou seja, ela vende na bolsa. Se a soja subir, essa empresa não fica com o ganho, ela acaba tendo que cobrir a margem dela na bolsa, ela faz a venda na bolsa. Sempre é um contrato rediado. Chamamos de rediado porque ele é protegido pela bolsa de Chicago”, conta. 

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Sobre a variação do preço, José Gilmar destaca que o preço da soja é formado por vários fatores, como o dólar e negociações na bolsa de Chicago, além de situações nos mercados internacionais que podem afetar o preço. “A diferença de preço é basicamente a desvalorização cambial. O dólar subiu bastante, houve uma demanda maior mundial, problemas com os Estados Unidos com a China, então isso levou o preço da soja subir um pouco”, explica. 

Para André Nasser, o questionamento dos valores não deve ter futuro porque o agricultor já concordou com o preço quando firmou o contrato. “Como representante das trandings, não vemos essa possibilidade de renegociação por conta de variação de preço. O produtor tomou a decisão de fixar o preço da soja, fazendo uma venda antecipada, basicamente uma decisão dele porque não procuramos para comprar. Ele que ligou para a trading e pediu para vender. Evidentemente, olhamos o preço de Chicago e oferecemos um preço para ele. Ele aceitou”, disse. 

Ele ainda explica que a soja é revendida logo após a firmação do contrato. “Ele fechou um contrato com o produtor, pagou X reais o saco, num certo volume para entrega numa certa data. Imediatamente, a trading vende esse produto na tela de Chicago correspondente porque a trading não pode ficar com risco. Ela não pode correr o risco do preço de Chicago subir ou descer lá na frente quando for feito o físico, a entrega do produto”, conta. 

José Gilmar relata que este tipo de questionamento já aconteceu e não teve sucesso. “Nós já tivemos variação no ano de 2004, soja de U$ 10 para U$ 20. Muitos produtores entraram na Justiça porque foi uma variação de bolsa. Na época, tinha alguns advogados que orientaram a entrar na Justiça, tentar não cumprir os contratos. Teve ação que finalizou agora, há pouco meses. O produtor teve que cumprir o contrato, teve que entregar tudo e teve que pagar um negócio chamado sucumbência para o advogado da outra parte que é 20% do valor do contrato. Quer dizer, qualquer diferença que tivesse ganho da venda da soja, além de ficar com o nome sujo para vender soja no mercado, ainda teve esse prejuízo financeiro imenso”, disse. 

André alerta que o não cumprimento do contrato também pode render prejuízo. “Ele tem o contrato de multa e tem o contrato de diferença de preço. Por que tem contrato de diferença de preço? Justamente porque a trading faz a venda do produto também. A trading não tem como desfazer o contrato feito, porque ela vendeu contra a tela de Chicago. Se o produtor não entregar essa soja, ele vai ter que pagar multa e diferença de preços. Não tem vantagem nenhuma para ele”, relata. 

Ele conta que o preço é revisto em situações muito especificas. “Algumas vezes, se o produto teve algum problema de colheita, atrasou, teve que colher mais ou teve uma quebra de safra e ele colheu menos do que ele vendeu antecipadamente, tudo isso requer a necessidade de uma renegociação. Mas aí são casos específicos, isso ocorre todo ano com as tradings e as tradings estão abertas para isso”, disse. 

Mercado futuro

José Gilmar destaca que quem ainda não vendeu a soja da última colheita, deve esperar mais um pouco. “Quem não vendeu até agora tem que aguardar um pouquinho. Esse mercado está meio turbulento, estamos com Chicago subindo bastante, estamos no meio da safra nossa aqui, então quem administrou até agora, pode administrar. Os preços cederam um pouco, a soja aqui na nossa região esteve em R$ 170, agora está na casa de R$ 140, R$ 142. Dizer que isso é um mau preço é um absurdo”, disse. 

Ele alerta que o produtor deverá estar atento é para a safra do próximo ano.  “O produtor precisa ficar muito atento para a safra de soja de 2021-2022 porque os custos de produção dele serão diferentes do que dessa soja plantada agora. Então, às vezes ele pode se iludir, achando que vai vender por R$ 130, R$ 140 na próxima safra e ser pior do que essa soja agora que ele vendeu a R$ 100, R$ 110”, conta. 

José Gilmar Carvalho de Oliveira alertou que o produtor deve estar atento à safra do próximo ano. Foto Reprodução YouTube