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Professor iratiense conta como a Covid-19 atingiu sua família

Edélcio Stroparo perdeu sua mãe por complicações da Covid-19. Ele, seu irmão e seu pai também foram contaminados. Edélcio chegou a ficar 13 dias internado na UTI da Santa Casa de Irati

Professor Edélcio Stroparo chegou a ficar com 75% do pulmão comprometido em virtude de complicações causadas pela Covid-19. Foto: Jussara Harmuch

A família do professor Edélcio Stroparo, 54 anos, foi uma das que perderam algum ente querido desde o início da pandemia do coronavírus em Irati.  Ele perdeu sua mãe por complicações causadas pela Covid-19. Em entrevista à Najuá, ele aceitou contar sobre sua perda e também como a doença atingiu seu pai, seu irmão e ele mesmo.

O professor conta que a primeira pessoa a sentir os sintomas em sua família foi o seu pai, de 90 anos. “A minha mãe, logo em seguida. E o caso dela foi justamente esse. Cadeirante há quase três anos, comorbidades, vários problemas de saúde, precisou de internamento, depois foi transferida para a UTI [Unidade de Terapia Intensiva], foi entubada na UTI e não resistiu. A situação foi exatamente essa. Eu e meu irmão também estávamos muito presentes com eles e acabamos sendo contaminados”, relata. 

O pai já está se recuperando, mas Edélcio e seu irmão ficaram internados na Santa Casa de Irati. O irmão permaneceu quatro dias no hospital. Já Edélcio ficou hospitalizado 13 dias na UTI, chegando a ficar com 75% do pulmão comprometido. 

O desafio agora é a recuperação. “Fui internado com 75% de comprometimento dos pulmões, estou num processo de recuperação já há 30 dias. Sinto que estou a cada dia melhorando, me sentindo melhor, mas tem um longo caminho pela frente. Estou ainda com muita dificuldade respiratória. Não sei avaliar qual é o grau de comprometimento hoje, devo fazer uma tomografia no final do mês, a pedido do médico que me acompanha, mas alguma sequela vai ficar”, disse. 

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A fisioterapia é umas ações que está realizando para se recuperar. “Estou num processo bastante intenso de fisioterapia. Isso tem me ajudado muito. E sinto que estou melhorando, mas não sei até onde vou conseguir recuperar meu pulmão. Possivelmente alguma sequela vai ficar, mas não tem problema porque fico muito feliz por estar respirando”, comentou. 

Para o professor, sua sobrevivência ocorreu porque não possui comorbidades. “Eu me considero uma pessoa saudável, embora não seja fitness, com uma carga de trabalho muito alta – três períodos do dia – acabamos relaxando um pouco na alimentação, reconheço que devia ter mais atividade física. Mas o dia a dia leva a essas situações. Eu considero que consegui sobreviver a essa situação possivelmente, que apesar desses descuidos com a saúde, não apresento nenhum problema mais sério. Não tenho diabetes, não tenho pressão alta, nada disso que são agravantes”, disse. 

Edélcio conta que não é possível saber como a família foi contaminada. “O vírus chegou na nossa família, não sabemos como. É provável que alguém de nós tenha tido contato com alguém que fosse assintomático. Mas enfim, aconteceu”, relata. 

Além disso, mesmo tendo grupos de risco, é impossível prever como essa contaminação irá ocorrer. “As pessoas que tem algum problema de saúde, algum comorbidade, crônica ou não, tem muito maiores chances de falecimento. Outras pessoas, as chances são menores, mas o vírus é muito violento e silencioso. Nós não vemos o vírus, não sabemos de sua existência e vamos sendo contaminados. E na face cruel do vírus, levamos esse vírus para o seio da nossa família. E acabamos contaminando as pessoas queridas”, afirma Edélcio. 

Ele também aproveitou o momento para destacar o atendimento que recebeu na Santa Casa. “Quero poder fazer também um agradecimento a todo o pessoal da Secretaria Municipal de Saúde e a Santa Casa. Nós, às vezes, ficamos pensando: ‘Ah, a nossa Santa Casa aqui em Irati tem esse problema e aquele não sei o quê’. Eu vivi a situação lá e posso dizer que o atendimento foi muito bom. Fui muito bem atendido. Não tenho nada a reclamar e quero agradecer a todas essas pessoas pelo bom atendimento em relação a mim, à minha família e todas as pessoas que lá estão”, contou. 

Conscientização

Edélcio conta que decidiu compartilhar sua história para ajudar na conscientização sobre a doença e alertar para os cuidados. “Nós ficamos sempre vendo o noticiário de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, que o noticiário televisivo e jornalístico geralmente prioriza essas regiões, achando que nunca isso vai vir para nós aqui no interior. Muito pelo contrário. O vírus está aí, não respeita endereços, não respeita qualquer condição das pessoas, ele chega, é violento e o risco de morte é muito alto”, alerta. 

Para ele, a prevenção é o maior meio para combater o coronavírus. “A melhor arma que temos hoje é o que se sabe: o distanciamento social, quando possível, que nem sempre é possível, as pessoas precisam trabalhar. As empresas precisam funcionar. Então, na medida do possível, o distanciamento ainda é muito importante, os cuidados todos que nos conhecemos, higienização, máscara e coisas desse tipo”, conta. 

Educação

Edélcio também presta consultoria para uma entidade educacional e comentou sobre como deverá ser a educação com a presença do coronavírus. Segundo ele, ainda não é possível dizer como será o próximo ano letivo. “A grande pergunta é essa: como vai ser 2021? Ninguém sabe. Nós estamos vivendo uma situação difícil e cada setor tem suas peculiaridades. A educação é muito diferente de tudo que está acontecendo porque nas atividades educacionais o contato é indispensável, na atividade presencial, as pessoas estão muito próximas, se tocam, as atividades são coletivas. É muito diferente da indústria e comércio. Se pensar numa sala presencial, você tem uma sala de 40, 50 metros quadrados e você tem 30, 40, 50 pessoas na mesma sala que convivem e permanecem por quatro a seis horas por dia. É uma situação de altíssimo risco. Pessoalmente, considero que não existe nenhuma possibilidade de retorno das atividades enquanto não tivermos uma vacina e que comprovadamente previna o contágio”, explica. 

O professor disse que acredita que as atividades remotas continuarão por bastante tempo. Além disso, o impacto da experiência do ensino à distância ajudará a ampliar um ramo da atividade. “A única certeza que se tem nisso tudo é que a escola, assim como muitas outras atividades, jamais será a mesma. O MEC [Ministério da Educação] já sinalizou com algumas situações, um exemplo nos cursos presenciais, de nível superior hoje. É possível que 40% das atividades sejam à distância, sem que o curso perca a característica de curso presencial. Antes da pandemia permitia 20%”, disse. 

Mas ele alerta que as atividades remotas que estão sendo realizadas no momento não podem ser comparadas à experiência da educação à distância, já que é um ambiente provisório e não preparado para este fim. “Os cursos que nascem à distância já nascem com essa característica. Ele tem um projeto pedagógico próprio, tem organização dos materiais, preparação dos professores, a organização do espaço físico, o próprio aluno que procura um curso à distância já tem propensão para essa atividade. Não vejo nenhum problema em relação a isso. O grande problema é o que nós estamos vivendo hoje nas nossas escolas e cursos, a grande maioria são presenciais e foram organizados para serem presenciais. De uma hora para outra fomos obrigados a migrar para uma atividade remota. Os professores, via de regra, não tem preparo para essa atividade, o espaço escolar não é preparado para isso, os recursos tecnológicos não são preparados para essa atividade e o projeto pedagógico do curso não foi pensado assim”, explica. 

Texto de Karin Franco, com reportagem de Jussara Harmuch e Paulo Sava