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O luto não vivido; uma experiência para conscientizar sobre a Covid

Neta conta experiência de sua família para trazer à Irati as cinzas da avó que morreu em Curitiba
Uma triste despedida, sem nem mesmo o último olhar. Foi assim que aconteceu na família de dona Francisca Cordel, 85 anos, que faleceu de Covid dia 14 de agosto, em Curitiba e precisou ter o corpo cremado para ser transladado de volta à Irati e repousar ao lado do esposo.

Francisca Cordel morou na Serra dos Nogueiras em Irati, foi embora para Curitiba depois da morte do marido, há 20 anos, onde residia, em sua própria casa, no mesmo terreno de um dos filhos. Parte da família ficou em Irati. Animada, alegre, positiva, com muitos ensinamentos. Assim era Francisca, que ensinou a neta Gisele a cozinhar e fazer o famoso prato polonês, pierogi. Ela adorava quando os netos a vinham visitar, na época que vivia em Irati.
Ela era muito animada, alegre, com muitos ensinamentos e positividade. Eu aprendi a cozinhar com ela, que adorava quando os netos iam visitá-la, conta a neta Gisele Mikuska
Apesar de inspirar alguns cuidados por problemas que vieram com a idade, Francisca fazia sua própria comida e não parava na cama durante o dia. Seis filhos, 16 netos. Procuraram fazer de tudo para protegê-la da contaminação pelo coronavírus. “Ela fazia a sua comidinha sozinha, apesar da idade, tinha vida normal. Primeiro teve diarreia e vômito, tomou soro e voltou para casa, mas passados alguns dias ela piorou e daí foi tão rápido!"


Duas perdas em menos de uma semana. Enquanto todas as atenções estavam em torno de Francisca, outro familiar, seu sobrinho neto, de 56 anos, faleceu por Covid, três dias antes da sua morte.

Em Curitiba, um decreto municipal determina agilidade na emissão do atestado de óbito e estipula prazo de quatro horas para que a funerária concessionária, responsável pelo atendimento faça a retirada do corpo da instituição médica. O translado é proibido, restando à família que pretende levar o corpo para outra cidade fazer a cremação.

Uma das filhas de Francisca, Marili, mãe de Gisele, gostaria de ter falado da mãe, mas a emoção a impediu. O luto não vivido dá uma sensação estranha e o que tornou mais difícil foi a impossibilidade do abraço entre os familiares que foram daqui, pois os demais parentes de Curitiba também pegaram o vírus e estavam cumprindo quarentena, conta a neta.
O que torna mais triste ainda é você não poder abraçar sua família e se consolar.
Contar a experiência foi uma forma que a família encontrou de tentar sensibilizar as pessoas para que cuidem de sua família e de sua comunidade. “As pessoas que viveram isso, como nós, que contem para os outros, para conscientizar que todos cuidem de si próprios, de suas famílias, de seus vizinhos, dos mais velhos”, finaliza.

Situação semelhante passou a família do servidor público municipal, Celso Cultom, de 51 anos, que faleceu por complicações causadas pela Covid-19, no hospital Erasto Gaertner, em Curitiba, no dia 22 de julho. O corpo de Celso foi cremado em Curitiba. No dia 28 do mesmo mês, amigos e familiares fizeram um cortejo fúnebre, que passou pelas principais ruas de Irati até o cemitério da Vila São João, onde aconteceu um momento de oração. Antes disso, dia 25, a avó de sua esposa, Maria de Andrade, 86 anos, também morreu de Covid.

Os custos com os procedimentos funerários para a cremação em Curitiba giram em torno de R$ 4.500. Nossa equipe entrou em contato com a prefeitura de Curitiba, que esclareceu os termos do decreto que regulamenta a proibição de translado do corpo em caso de morte confirmada ou suspeita por Covid-19. A medida tem como objetivo conter a disseminação da doença e baseia-se em resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “Fica vedada a prestação de serviço de translado de restos mortais humanos em cujo óbito há suspeita ou confirmação por Coronavírus (Covid-19) que devem ter, obrigatoriamente, o caixão fechado pela funerária e as tarraxas retiradas, não podendo mais ser aberto”.