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Fumageiras se comprometem a comprar toda estimativa de produção de tabaco em Irati

Negociação junto ao Sindicato Rural de Irati discutiu as estimativas de produção baixas feitas pelas fumageiras
Plantação de fumo no município de Ipiranga. Foto: Paula Denck
Karin Franco, com reportagem de Paulo Sava e Rodrigo Zub
As empresas fumageiras se comprometeram a comprar toda a estimativa de produção de tabaco dos agricultores de Irati. A negociação foi feita junto ao Sindicato Rural de Irati, em uma videoconferência na última semana, reunindo representantes das empresas JTI, Premium Brazil Tabacos, Continental Tobaccos Alliance (CTA), Philip Morris, Universal Leaf Tabacos, Souza Cruz e Alliance One. Nesta última, uma nova reunião deve finalizar questões da negociação dos produtos.

Ouça a entrevista completa com o presidente do Sindicato Rural no fim do texto

A estimativa de produção é um valor estabelecido no contrato entre a empresa compradora e o agricultor, orientando a negociação de compra e venda entre as partes. Esse valor pode ser revisto durante o ano, seja para mais, nos casos em que a produtividade aumenta, ou para menos, em casos de perdas climáticas, por exemplo.

Neste ano, muitos agricultores disseram que a estimativa estava baixa, acarretando em perdas. “Teve empresas que fizeram uma estimativa muito baixa e o produtor na hora que vai vender, tem um volume de entrega muito pequeno. Entre a estimativa e o que foi produzido realmente tem uma lacuna, uma sobra de tabaco. Isso favorece a especulação. A empresa diz: ‘Nós não vamos comprar esse excedente da estimativa’. E daí aparece outra empresa comprando a preço mais baixo ainda esse tabaco e o agricultor fica desesperado. Diz que o sistema integrado é para ser uma organização, um equilíbrio na relação, e esse ano tivemos todos esses problemas na safra no Paraná”, disse o presidente do Sindicato Rural de Irati, Mesaque Kecot Veres.
O presidente afirma que outra dificuldade dos agricultores é em relação à classificação das folhas de tabaco. Folhas com menos qualidade recebem uma classificação menor, gerando também um preço baixo. Os agricultores reclamam da forma que a classificação é feita. “Essa prática da classificação, que é no olho ainda, no caso do tabaco ela deveria ser mudada. Está completamente ultrapassada. E é uma reclamação muito grande dos produtores”, revela.

Negociação
Além do comprometimento de compra das estimativas, as empresas também prometeram a melhorar a comunicação com agricultores. “Primeiro compromisso que todas assumiram que irão comprar toda a estimativa. Também se parou um pouquinho e melhorou a questão da comunicação que essas empresas estão tendo com os produtores. [Há] muito desencontro de informação”, relata Mesaque.

De acordo com o presidente, muitos agricultores acabam tendo informações incompletas ou desencontradas, gerando uma desestabilização durante a negociação dos preços. “O agricultor é o principal parceiros dessas empresas. Quando uma empresa se comunica mal com seu parceiro, cria uma instabilidade uma insegurança”, explica.
Foto: Paula Denck
Direitos do agricultor
Mesaque ainda afirmou que os agricultores precisam estar atentos aos direitos durante a negociação de um contrato.  “Vem o orientador na sua propriedade, vai apresentar a estimativa e o agricultor vai assinar se ele concorda com aquilo lá. O agricultor tem que dar a opinião dele sobre a estimativa”, destaca.

Ele reitera que o agricultor não pode aceitar uma estimativa muito baixa na hora de assinar o contrato. “Fez uma estimativa muito baixa, como 100 gramas por pé. É muito baixo. Vamos dizer que esse agricultor ele produza 150 gramas por pé. Veja que há uma diferença muito grande se a estimativa for estabelecida muito baixa”, explica.

Para assegurar esses direitos, o presidente também alerta que é preciso prestar atenção ao que está no contrato. “O agricultor deve ficar atento ao contrato, o número de pés que ele fez o contrato. Digamos que ele fez 60 mil pés. Então, procure plantar os 60 mil pés. Não é 65, nem 55. Para ele garantir o seu direito”, destaca.

Cadastro

Além do contrato, empresas de tabaco tem feito cadastros com os agricultores, se comprometendo a comprar a safra. Segundo Mesaque, esta prática também traz insegurança, já que as empresas deixam de comprar do produtor integrado para comprar de produtores cadastrados. “Tem uma modalidade que algumas empresas tem praticado que é a fichinha do cadastro. Existiriam duas modalidades: o produtor que é o contratado, que seria do sistema integrado, e algumas empresas fazem uma insinuação de: ‘Faz uma ficha conosco e nós vamos comprar o seu tabaco’. Quando o agricultor entra nessa, ele está entrando numa armadilha. Essas empresas na verdade estão flertando com a especulação e isso prejudica o agricultor. O conselho que nós damos: faça o contrato com uma empresa, cumpra o contrato com o número de pés, evite fazer essa tal de ficha ou cadastro porque isso não é sistema integrado e nós vamos ficar de olho nessas empresas que se dizem integradoras, mas estão fazendo esse papel de duas pontas: tem o produtor integrado e os produtores cadastrado”, ressalta Mesaque.

Pandemia

A pandemia do novo coronavírus atrasou o período de compra de tabaco neste ano. As empresas que geralmente fecham entre junho e julho, já estão aumentando o prazo de compra para até agosto.
A dificuldade é que com o tabaco já colhido e armazenado, a folha pode perder qualidade e gerar um preço menor enquanto não é vendido. Mesaque conta a situação de um agricultor de Irati para exemplificar como isso ocorre. “Chegou o caminhão da empresa para buscar o produto do agricultor. [O motorista] Recebeu uma ligação, só pegou um volume que era da dívida do agricultor e deixou o restante da produção no paiol do agricultor. Deu um granizo, acabou molhando esse tabaco e prejudicou a qualidade”, relata.

Preço

Em Irati, o preço do quilo de tabaco está sendo negociado, em média, a R$ 9,77. Mas o presidente do Sindicato Rural disse que já houve situações em que o preço baixou para R$ 7,40 o quilo. Para ele, o preço deveria ser acima de R$ 10 para cobrir os custos de produção. “Pelo trabalho que ele dá, pela qualidade que os nossos produtores estão produzindo, pelo custo de produção, temos os insumos, temos a energia elétrica, a lenha, a mão de obra do nosso agricultor que precisa valorizar e é isso que as empresas não estão de modo geral não estariam enxergando”, comenta.

Atualmente, no município, há entre 1.450 e 1.600 produtores de tabaco.

Confira a entrevista com Mesaque Kecot Veres