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Comércio de bicicletas apresenta crescimento de vendas em meio à pandemia

Setor teve boa surpresa com estouro de vendas em abril e vem mantendo boa produtividade desde então

Jussara Harmuch


Loja Pirubikes, em Irati, apresentou crescimento na procura de pessoas interessadas em arrumar bicicletas no período de pandemia. Foto: Jussara Harmuch
O comércio de bicicletas, diferente da maioria de lojas do varejo, não sofreu impacto com a adoção de medidas para evitar aglomerações por conta da pandemia de coronavírus.

Em Irati, o primeiro decreto publicado no dia 17 de março, previa medidas leves de distanciamento social e a adoção de hábitos de higiene. Logo em seguida vieram outras determinações: funcionamento do comércio só no período da tarde (20/03); depois o fechamento total, com abertura só de serviços essenciais (24/03) e, por fim, atendendo à solicitação do comércio e indústria, a reabertura total (30/03), permanecendo com as medidas iniciais, acrescidas de outras como a proibição de esportes coletivos. Os primeiros casos da 4ª Regional de Saúde foram registrados em maio. Em Irati, o primeiro diagnóstico positivo da doença foi notificado no dia 14 de maio.

Isso não abalou o ramo de peças, conserto e venda de bicicletas. Pelo contrário, no mês de abril ocorreu um boom no setor, é o que relatou à Najuá, o empresário dono da Pirubikes, Márcio Rogério Razera.

“Quando passou aquela semana em março [fechamento do comércio], no início de abril, estourou. Todo mundo começou a procurar bicicleta e tirar das garagens, aumentou a procura na manutenção. Não foi atingido diretamente, até cresceu bastante em abril, foi excelente, e agora em maio está sendo bom, não tanto quanto abril, mas está melhor do que antes da pandemia”.


Com as crianças em casa e a proibição de aglomerações em parques e esportes de grupo, cresceu o número de aptos de atividades individuais. Nessa onda que o comércio das bicicletas esquentou. “As crianças, sem aulas, ficam o dia inteiro em casa. Foi uma opção para afastar do computador. Em vez de ir num parque, começaram a andar de bicicleta, em casa mesmo. E o pessoal dos outros esportes, futebol, vôlei, basquete começaram a procurar um esporte individual, onde os riscos de contágio são bem menores”, ressalta Márcio.

Algumas pessoas que não praticavam essa modalidade enxergaram uma maneira de se distrair, considerando o stress por ter de ficar o tempo todo em casa, em home office. “Psicológico, dia inteiro dentro da casa, trabalhando dentro de casa, então há necessidade de renovar os pensamentos e praticar exercício”, avalia o empresário da Pirubikes.

Outro fator é o transporte, de um modo geral ou para o trabalho. A bicicleta é uma opção ao transporte coletivo onde a pessoa fica exposta ao contato.

Márcio Rogério Razera recomenda que ciclistas não realizem atividades em grupo para evitar risco de transmissão do Covid-19.  Foto: Jussara Harmuch
Grupos do pedal

Márcio conta que desde que começou a pandemia não saiu em grupo e só fez pedal individual. Ele saiu com mais dois amigos apenas uma vez, mantendo distanciamento de até 20 metros. Ele recomenda que as pessoas evitem sair em grupos grandes, pois a respiração acelerada pelo exercício faz com que gotículas sejam expelidas o tempo todo e pode contaminar o de trás.

“No máximo quatro pessoas, duas de cada lado da rua. Três ou quatro até é bom por segurança, mas não mais do que isso. Cada dupla pode ficar de lado opostos da via. Em todo lugar vai ter sempre aqueles que acham que nada vai acontecer. Aqui [na loja] sempre o funcionário orienta quem chega. Exigimos máscara e passar álcool gel. Nos grupos de whatsApp procuro orientar e tenho cobrado. Eu mesmo moro com pessoas de mais idade e me preocupo de não levar o vírus para casa”, comenta o empresário.

Da mesma forma, João Emerson Rogal, da Cicles Guarani, relata que ficou sem saber o que ia acontecer nos primeiros dias, mas logo percebeu o aumento da procura na loja. “Como teve bastante baixa nas academias, para o ciclismo teve alta. As pessoas estão saindo para passear em família. Além de ajudar na natureza, estão se exercitando”, disse.

João Emerson Rogal diz que as pessoas estão procurando sair para pedalar em família. Foto: Jussara Harmuch

Ciclovias

Rafael, que é filho de João Emerson e trabalha na mesma loja, viu o aumento do uso de bicicletas como meio de transporte para o trabalho, depois da pandemia.

“As pessoas estão evitando o transporte público, aglomerações. A gente pode perceber também que existe um descaso, um despreparo nas vias públicas em relação à segurança do ciclista. Faltam ciclofaixas e ciclovias, também sinalizações de trânsito”.

Irati tem poucos espaços de ciclovia para o lazer, ligando parques ou para interligar com áreas rurais de turismo ecológico. Construída no Parque aquático, a ciclofaixa que leva o nome do irmão de Márcio e grande incentivador do ciclismo em Irati, Marcos Antônio Razera, que faleceu de câncer em 2015, não chegou a ser inaugurada antes da pandemia, mas já pode ser utilizada pela população. O local é bonito e não muito longe do centro. As faixas são de um asfalto bem liso e foram cuidadosamente pintadas.

Rafael reivindica construção de mais ciclovias e ciclofaixas em Irati. Foto: Jussara Harmuch
No caso de deslocamentos dentro da cidade e ligação entre bairros a estrutura é deficitária. A pista da BR-153, que cruza a cidade e faz a ligação com o maior bairro, a Vila São João, não possui acostamento e o movimento de transporte de cargas intenso se mistura aos veículos de trabalhadores que entram e saem o dia todo.

Em entrevista à Najuá nesta semana, o secretário de Planejamento e Coordenação, João Almeida Junior, disse que a intenção da prefeitura de Irati é aumentar o número de ciclofaixas e ciclovias no município. O projeto possui quatro eixos que ligam o centro do município, na região da rua Doutor Munhoz da Rocha, com os bairros, que depois serão integrados para facilitar o uso pelos ciclistas.

O projeto contempla ciclofaixas e ciclovias nos bairros Rio Bonito, Nhapindazal e duas na Vila São João, sendo que uma passará atrás da empresa Yazaki, no trecho da Avenida Getúlio Vargas.

Fornecedores e indústria

Emerson desconhece dados da indústria, mas sabe que muitos fornecedores tinham estoque e continuam fornecendo peças. Ele acredita que acontece a mesma coisa na indústria nacional.

Produção de bicicletas em Manaus despenca em abril

Os números da produção de bicicletas na Zona Franca de Manaus mostram uma queda brusca no volume de produção. As 10.071 produzidas em abril representam uma queda de 81,4% no comparativo com março de 2020 (54.115 unidades), que representou ainda retração de 86,7% no comparativo com abril de 2019 (75.680 unidades). O esforço das empresas do polo é de minimizar as dificuldades de caixa e dos parceiros no varejo.

Resultados positivos no exterior

A indústria de bicicleta no mundo tem apresentado resultados positivos. A Dorel Sports (controladora das marcas Cannondale e também da Caloi) enxerga um crescimento nos negócios com um aumento no número de ciclistas. A pequena inglesa Brompton viu suas vendas crescerem cinco vezes durante o lockdown. Outro exemplo é a Swytch, que fabrica kits de conversão para elétricas, a empresa tem uma lista de espera de 100.000 pessoas por conta do aumento de demanda.