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Como especialistas interpretam o endurecimento e afrouxamento das medidas para conter a pandemia

Se você chegou ao ponto que já não sabe mais em que acreditar, não deixe de acompanhar o debate entre os infectologistas Marcelo Burattini e Arnaldo Lichenstein que divergem, mas também concordam em questões importantes da pandemia de Coronavírus.


Jussara Harmuch

Este texto relata a participação dos infectologistas Marcelo Burattini, professor da Universidade Federal de São Paulo - UFS e da Universidade de São Paulo - USP e Arnaldo Lichtenstein, diretor técnico do Hospital de Clínicas de São Paulo, no programa “Opinião” da TV Cultura, sob a condução foi da jornalista Andresa Boni, que abordou a questão do endurecimento e flexibilização das medidas para conter a pandemia de Coronavírus.

O programa foi ao ar na quarta-feira, 06 de maio, pela TV Cultura e pelos canais da emissora na internet. Você pode assistir na íntegra acessando o vídeo no final desta matéria.

Ambos concordam que a quarentena adotada em boa parte das cidades, como foi em especial na cidade de São Paulo, achatou a curva que vinha crescendo em sentido exponencial.
O isolamento quebrou o componente exponencial. O mal é que ela vai afetar a população tanto quanto deveria se afetar. A pergunta é quanto tempo a população e o governo vão conseguir manter as medidas propostas até agora, inicia Dr. Marcelo Burattini.
O mundo optou por durante a epidemia proteger os vulneráveis com acesso à Saúde. Não há dúvidas que o isolamento social achatou a curva, a situação atual é melhor do que se não fosse adotado, pontua Dr. Lichtenstein.

UTI

Nunca se falou tanto em ventiladores e Unidades de terapia Intensiva – UTIs quanto agora, isso decorre do fato de que os poucos indivíduos que evoluem com quadros graves da doença precisarem de tratamento nestas unidades e o tempo de permanência nelas é grande, de 4 a 5 semanas, maior do que em outras doenças, e isso estrangula o sistema de Saúde.

A decisão pela flexibilização deve levar em conta a capacidade de comprometimento dos serviços e a taxa de ocupação das UTIs.

Favelas e barracos

O problema social do Brasil e África difere da Europa.
A Alemanha está saindo do isolamento, mas a taxa de ocupação de UTI está em 60% e se mantém nisso com ações de rastreando, com exame PCR (teste para detectar o vírus), rasteio via celular e isolamento de contatantes e, mais tarde, vai ser feito a sorologia para verificar se está perto da imunização de rebanho, diz Lichtenstein e completa, a mortalidade não vai ser só do Covid, vai ser dos pacientes com câncer, com infartos que não estão tendo acesso às UTIs, diz o Dr. Arnaldo Lichtenstein.
Só não concordo com saídas do tipo uma solução serve para todos. Uma das principais medidas deveria ser a flexibilização dos horários das atividades econômicas, escolas e transporte, por exemplo, em turnos, quebrando horário de picos. Não tem sentido reduzir o número de transporte coletivo porque mantém o ônibus lotado. Mas estas medidas só tem sentido junto de um planejamento de retomada de atividade econômica e temos que antes discutir os locais onde há concentração, shoppings, comércio de rua. Mas o comércio regional não aglomera tanto. Tudo isso deve ser feito de forma responsável, com [a adoção] máscaras, lavar mãos, [em coletivos] assentos um sim ou não, aponta Burattini.

Lichenstein assente com o que foi pontuado por Burattini, só não concorda de tomar esta decisão agora, ele está preocupado com o repique.

Mais uma vez o questionamento da quarentena

A opinião de outro médico, Dr. Anthony, que é pediatra, que não concorda com a quarentena e justifica que o Brasil é composto por gente jovem, foi trazida para o debate.
Todos que tentaram adiar medidas tiveram catástrofes, Estados Unidos, Inglaterra, Itália, comenta Lichenstein.

A quarentena é importante e achatou a curva, assente DR Marcelo Burattini, mas ele questiona se outras medidas de distanciamento social bem planejadas não poderiam ter o mesmo efeito que a quarentena.
O que eu questiono é se hoje não deveria prorrogar porque a pressão é focal, nos centros urbanos e não nas cidades menores, no interior. O estado de São Paulo SP hoje tem transmissão ativa em mais ou menos 30% dos municípios, quando começou tínhamos em 15%. Será que precisaria ser feito a quarentena em todos, como foi?

O matemático Tiago Pereira de matemática que faz parte de um grupo que estuda a evolução do Coronavirus no Brasil defende a quarentena, mas diz que o planejamento foi equivocado, mal planejado ou precoce.

A jornalista pergunta a respeito da forma mais rigorosa de isolamento que já está sendo aplicada em quatro cidades no Maranhão e alguns especialistas defendem adotar no Rio de Janeiro, o lockdown.
O Rio tem uma aglomeração enorme nas comunidades com histórico de corrupção e má administração. Mil pessoas esperando vagas de hospital e mais de 300 esperando UTI. No Rio fica inviável, é mais fácil fazer em cidades menores, apesar de que em Nova Iorque foi feito, mas é outra realidade, responde Dr. Arnaldo.
No Rio, 60% da população em casa estaria mais exposta do que fora porque vivem em aglomerados, eles não ficam em casa e sim circulando em torno, lembra o Dr. Marcelo.

Escolas

Em relação à atividade nos estabelecimentos escolares, em especial para os menores de 10 anos, que não são as maiores vítimas, os especialistas divergem totalmente.
A doença é menos grave, isso não quer dizer que são menos contaminadas e menos contaminantes. Acho [adequado] começar o retorno por esta faixa etária, quando for flexibilizar, opina Lichenstein.

A evidência acumulada hoje nos permite dizer que as crianças sim não só tem menos formas graves mas são menos infectadas do que a população adulta. Estudos mostraram que abaixo de 10 anos menos de 1% é positivo e entre 10 e 20 em torno de 5%. Aqui no Brasil a escola pública infantil não deveria ter sido fechada, questiona Burattini.

Combate
O combate da pandemia está calcado na ciência, na cidadania e na condução do governo, finaliza Lichenstein
Dr. Marcelo concorda e acrescenta que para que isso aconteça tem de haver credibilidade da população no gestor público.
Se a população perder a credibilidade adotando cada um por si as atitudes, aí se perde o controle da situação, finaliza Dr. Burattini, rechaçando o uso político da pandemia, que tem sido feito nas várias instâncias, finaliza Burattini.

Assista o programa na íntegra