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Material reciclável deve ser mantido em quarentena antes de ser manipulado, diz Ministério Público do Trabalho

Em Irati, material é armazenado por 72 horas em uma área que fica nos fundos dos barracões das cooperativas Malinoski e Cocaair antes de ser manipulado pelos catadores

Paulo Henrique Sava

O Ministério Público do Trabalho (MPT) publicou uma portaria na qual determina que todo o material da coleta seletiva deve ser mantido em “quarentena” antes de ser manipulado por catadores de cooperativas de lixo reciclável. 

No documento, o órgão determina que todo o material deve permanecer “em espaço físico apartado dos locais de trabalho das catadoras e catadores de materiais recicláveis, sob responsabilidade do Município, pelo período de tempo igual à sobrevida do vírus em superfícies, considerado o maior período (72 horas), após o qual deve ser encaminhado, também às expensas do município, para os barracões de triagem das associações e cooperativas de catadores de materiais recicláveis”. 

Em Irati, o material coletado é armazenado em uma área localizada nos fundos dos barracões da Associação Malinoski e da cooperativa Cocaair, na Vila Nova. Após o período de 72 horas, toda a carga é acondicionada em bags e permanece por mais dois dias dentro dos barracões antes de ser manipulada. 

Conforme Luciane Malinoski, responsável pela Associação Malinoski, depois deste período de armazenamento, o material vai para as mesas onde é feita a triagem. “Ele chega, é juntado e armazenado dentro dos bags, onde fica por 48 horas. Depois disso, fazemos a triagem”, frisou. 

Mara Parlow, funcionária da Secretaria de Ecologia e Meio Ambiente, ressalta que as cooperativas têm levado a sério a necessidade de deixar o material em “quarentena” antes de ser manuseado. No entanto, ela explica que isto não significa que o material necessariamente permanecerá isolado por 40 dias. “Quarentena nem sempre significa quarenta dias: podem ser 7 dias. Se você vier de viagem de outra região do Brasil ou de fora, tem que ficar 7 dias de quarentena. Uma outra palavra que poderia ser utilizada seria ‘resguardo’: você tem que ficar 7 dias isolado, de resguardo, com o uso de seus talheres e apetrechos todos. Quarentena é apenas uma palavra para dizer que você tem que ficar um certo tempo resguardado, e assim também é com o material reciclável”, ressaltou. 

Proteção dos catadores

Para contribuir com a proteção dos catadores contra o Coronavírus, o Executivo cedeu máscaras descartáveis, óculos, aventais e luvas para serem utilizados durante o trabalho. A associação Malinoski e a cooperativa Cocaair adquiriram máscaras de pano e as distribuíram para os cooperados. Cada um deles comprou uma máscara de tecido para complementar a proteção. O município também forneceu álcool gel para higienização das mãos. De acordo com Mara, o município não fez a doação de mais máscaras porque elas já estavam em falta até mesmo para os profissionais da saúde. “Por uma questão de prioridade, ficou mais para o pessoal da saúde, pois sabemos que no mercado estão faltando máscaras”, apontou.

A coleta ficou paralisada por aproximadamente uma semana, logo no início da quarentena. Durante este período, a Prefeitura doou cestas básicas para os catadores, que ficaram sem a renda dos recicláveis.  “O município está do nosso lado”, pontuou Luciane.

Mara esclarece que as medidas solicitadas pelo MPT foram plenamente atendidas pelo município. “Quais são estas medidas? O uso de máscaras, óculos, luvas, aventais específicos para o manejo na separação do material”, afirmou.

Capacitação

O MPT também recomendou que o município oferecesse capacitação para os trabalhadores. Neste sentido, foi realizada uma tarde de conversa em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde. O enfermeiro Agostinho Basso repassou orientações para os catadores. 

“Foi uma tarde bastante bonita e construtiva, na qual perguntas foram feitas para ele enquanto profissional da saúde que tem expertise no cuidado com esta situação do coronavírus. Fizemos esta capacitação, destinamos kits de EPI’s, o próprio pessoal da cooperativa e da associação providenciou suas máscaras porque a Prefeitura destinou um kit com uma máscara, que tem uma vida útil muito curta, diferentemente das de pano, que são melhor feitas”, pontuou.

Chegada da Ecovale provocou aumento da quantidade de material

Luciane ressalta que, com a chegada da empresa Ecovale, que assumiu a coleta do lixo orgânico, houve um aumento da quantidade de material enviado para as cooperativas, que saltou de 40% para 80% da capacidade de trabalho delas. “O material que estamos utilizando agora vinha na época do verão, nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro, nos quais coletávamos mais material. Com a entrada da Ecovale, o material continua na mesma rotatividade, então aumentou o volume de trabalho, tanto que pudemos dar emprego para as pessoas que precisam”, frisou. Foram admitidas mais duas pessoas para o trabalho na cooperativa, que passou a contar com 26 catadores. 

Mara ressaltou que a empresa Ecovale vem cumprindo o que foi estabelecido em contrato e está coletando somente os rejeitos. “Ponderamos, com bastante evidência, que (a Ecovale) não deve recolher todo o lixo: o que for reciclável ela não deve levar. Acreditamos que a empresa está levando isto a sério e não leva reciclável. Novamente no início do ano demos uma ‘endurecida’ e não levamos o que estiver misturado. Esta é uma pedagogia que força a população a fazer a separação direito e colocar o lixo em sacos separados em orgânico e reciclável”, frisou. 

O que pode ser colocado no material reciclável?

Garrafas pet, papelões e plásticos podem ser colocados no material reciclável, assim como latas grandes, latinhas, ferro, panelas, sacolinhas, embalagens pet de óleo de soja e caixas de leite são aceitos pelas cooperativas. As chamadas “marmitex” não são separadas porque, na maioria das vezes chegam com restos de comida e não há como os catadores fazerem a higienização para revenda.

“Geralmente vem (as marmitex) mas a gente não separa porque o comprador quer a marmita limpa e nunca vem, sempre tem restos de comida e a gente tem que jogar para o rejeito porque não temos como lavar e nem tempo para isto”, pontuou Luciane. 

Isopor, pacotes de salgadinhos, macarrão e café também são considerados rejeitos e são destinados para o aterro sanitário. 

Preocupação com a pandemia

Mara ressalta que a preocupação com a pandemia fez com que a população adotasse a prática de guardar os materiais recicláveis limpos e devidamente higienizados.

“Estamos recebendo nos barracões um material bem mais decente, bonito e limpo, o que favorece muito o trabalho daquelas pessoas que são seres humanos como nós e precisam utilizar e manejar coisas que nós desprezamos e não queremos nem olhar porque está sujo ou cheira mal. Realmente o volume aumentou muito e a qualidade do material melhorou. Estamos felizes com isto. Claro que ainda temos um caminho grande pela frente, mas vamos passo a passo”, finalizou. 

Fotos: Paulo Sava

Material é armazenado por 72 horas em um barracão coberto nos fundos das cooperativas, na Vila Nova

Após este período, recicláveis são acondicionados em bags e permanecem armazenados por mais dois dias

Depois de mais 48 horas, material pode ser manipulado pelos catadores

Ministério Público do Trabalho determinou que todo o material reciclável permaneça armazenado por 72 horas antes de ser manipulado, para evitar contaminação dos catadores pelo Coronavírus