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Chefe de epidemiologia da SESA esclarece principais dúvidas sobre a Covid-19

Paraná já registrou 621 casos e 24 óbitos desde que foram confirmados os seis primeiros casos, em 12 de março

Da Redação, com reportagem Deividi Lira/AERP


Chefe do setor de Epidemiologia da SESA, Acácia Nasr, foi entrevistada pelo jornalista Deividi Lira. Foto: Divulgação
Vinte e oito dias depois da confirmação dos seis primeiros casos de Covid-19 (novo coronavírus) no Estado, em 12 de março, o Paraná já acumula 621 casos e 24 óbitos, segundo o Boletim Epidemiológico da Secretaria de Estado da Saúde (SESA) divulgado hoje (9). Na terça-feira (7), a chefe do setor de Epidemiologia da SESA, Acácia Nasr, em entrevista à Associação das Emissoras de Radiodifusão do Paraná (AERP), esclareceu as principais dúvidas relacionadas ao contágio da doença.

Sobre os casos de pacientes recuperados, a exemplo de uma senhora de 91 anos, em Cornélio Procópio; uma mulher de 67, em União da Vitória e quatro casos em Ponta Grossa, Acácia explica que eles devem seguir as orientações do Serviço de Saúde e da avaliação médica, a depender do tempo que ficaram internados. “Se recebeu alta antes de completar os 14 dias, deve permanecer em isolamento por mais 14 dias e observar, em casa, o uso de máscaras, da etiqueta respiratória, do isolamento social, da higienização das mãos. Nesse período, mesmo em domicílio, que essa pessoa fique dentro do quarto e evite o contato com outros familiares. Não compartilhe objetos pessoais e mantenha os ambientes ventilados. Enquanto estiver sintomático, essas medidas devem ser tomadas”, salienta.

Cumpre ressaltar que as autoridades de saúde consideram um paciente curado ou recuperado de Covid-19 quando, após o período de quarentena, não apresenta mais os sintomas relacionados à doença e já recebeu alta da equipe médica. No Paraná, já são mais de 200 pacientes recuperados.
Para quem foi infectado, o retorno ao trabalho não pode ocorrer antes de 14 dias – período de incubação. “Profissionais de saúde com algum sintoma respiratório, febre ou tosse devem ser afastados de sua função até ficarem assintomáticos. Depois de 72 horas assintomáticos, poderão retornar às suas atividades.

Por ser um vírus novo, ainda é vista como incerta a questão da imunidade do paciente ao SARS-CoV-2 (novo coronavírus) após a recuperação. “Quando o organismo entra em contato com o vírus, produzimos defesa, produzimos anticorpos. Isso vai gerar uma imunidade, que pode ser, regra geral, para toda a vida. Como é um vírus novo, ainda estamos acompanhando. Pode ser que, em outros momentos, apresente sintomas mais leves ou só a febre, em caso de reinfecção”, diz.


Acácia pontua que, ainda que no Paraná a faixa etária das pessoas infectadas seja bastante variável, a literatura médica demonstra que há uma predominância dos casos e, portanto, maior risco, entre as pessoas com mais de 60 anos e os portadores de comorbidades. “A morte por coronavírus ocorre em todas as faixas etárias, mas ela é maior a partir de 60 anos. É importante que pessoas que tenham algum tipo de imunodepressão, que ainda não tenham essa faixa etária, ou que tenham algum problema de saúde, como pressão alta, diabetes ou até mesmo obesidade devem ser monitoradas com maior atenção”, alerta.

“A Vigilância Sanitária do Estado e a Anvisa orientam todas as medidas de precaução aos hospitais, que já realizam essas medidas de segurança do paciente e estão todos preparados, tanto a rede pública como a rede privada, no cuidado dos pacientes com coronavírus e para a proteção de suas equipes. Seja por uso de insumos, equipamentos de proteção individual e todas as medidas em relação ao manejo clínico desses pacientes”, enfatiza.

Transmissão

A transmissão do Covid-19 pode ser classificada em três tipos. Os casos importados são aqueles em que o paciente contraiu o vírus fora do País, do Estado ou do município onde vive. A transmissão local, por sua vez, é quando o transmissor é o “caso índice” – ou seja, a pessoa infectada sabe de quem pegou o vírus. A transmissão comunitária, por fim, ocorre quando já não é mais possível identificar quem transmitiu a doença, porque o vírus está circulando.

Atendimento a pacientes no interior

Questionada se o Paraná está preparado para lidar com uma curva ascendente de transmissão da doença, como ocorre em São Paulo, e se há condições de tratar adequadamente os pacientes do interior, Acácia responde que o Estado vem adotando todas as medidas para que esteja preparado quanto aos testes de detecção, aos equipamentos de proteção individual e aos leitos hospitalares e respiradores, com “incremento significativo” nos leitos de UTI.

“Orientamos o isolamento para que essa transmissão pessoa a pessoa seja menor e para que a necessidade das pessoas em utilizar o sistema de Saúde nos casos graves e que necessitem de UTI seja menor e a nossa capacidade instalada no Estado dê conta”, argumenta.

Isolamento

Muita gente ainda tem dúvidas sobre como lidar com o paciente em isolamento em casa. Acácia orienta que o paciente deve ser mantido num quarto com boa ventilação e que ele não deve circular pela casa. Copos, pratos, talheres e roupas de cama devem ser lavados e utilizados separadamente.

A orientação para a higiene dos utensílios é que eles sejam lavados com água e sabão por 40 segundos e que todos os objetos usados pelo paciente sejam desinfetados, inclusive a roupa de cama. Segundo a chefe de Epidemiologia, não é necessário utilizar luvas para lavar os utensílios. Basta que a pessoa tome o cuidado de não levar as mãos à boca, ao nariz ou aos olhos enquanto lava a louça e, depois, fazer a higienização adequada das mãos.

Transfusão de sangue

Segundo Acácia, pacientes que tiveram coronavírus não devem doar sangue. “Pessoas que tiveram a doença não devem, neste momento, doar sangue. Faz parte da triagem com RT-PCR, para que pessoas doentes não estejam realizando a doação de sangue”, explica.

Testagem

De acordo com a chefe de Epidemiologia da SESA, o Laboratório Central (LACEN) tem se empenhado para realizar, diariamente, até 600 testes para o coronavírus, usando o método conhecido como RT-PCR (sigla inglesa para transcrição reversa seguida de reação em cadeia da polimerase).
“Também temos parcerias realizadas para ampliar o número de testes. Há o empenho do nosso governo para adquirir mais testes RT-PCR e também já chegaram ao Estado os testes rápidos, que vão servir como triagem para os profissionais de saúde e para os profissionais de segurança pública. Temos trabalhado para que todas as pessoas internadas com síndrome gripal (SG) ou com síndrome respiratória aguda grave (SRAG) e que todos os profissionais que atendem a pessoas com esses sintomas realizem esses exames”, aponta.

Manutenção da quarentena

Desde o pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro na última semana, e com os decretos que passaram a autorizar, gradativamente, a retomada do comércio em vários municípios paranaenses, já se observa um certo abrandamento do regime de quarentena. Os supermercados precisaram adotar regras mais rígidas para manter a segurança de clientes e funcionários, como restringir a entrada a apenas um membro de cada família. Algumas pessoas já retomaram passeios em família e visitas a parentes e amigos, o que ainda não é recomendável nesse momento.

O isolamento e o distanciamento social ainda são cruciais para impedir que o vírus se propague, para que não haja um pico da doença. “Neste momento é muito importante mantermos o isolamento social, principalmente dos idosos e das pessoas que apresentam algumas comorbidades, como diabetes, pressão alta, problemas do coração, obesidade. Essas pessoas devem evitar sair às ruas sem necessidade”, salienta.

O “achatamento da curva ascendente de contaminação” no Paraná, segundo Acácia, resulta da adoção de medidas em tempo oportuno. “As medidas vão ser realizadas ainda pelo nosso governador, que está acompanhando toda essa situação. Há momentos em que vai relaxar um pouco mais [a quarentena] e há momentos em que vai segurar um pouco mais. Mas, neste momento, ainda devemos manter o isolamento social”, diz.

“No Paraná, ainda estamos na fase de epidemia. Não entramos na fase brusca de aceleração”, acrescenta. Ela acredita que no mês de maio deve haver um crescimento no número de casos. Por isso, as medidas estão sendo tomadas desde agora: para que se reduza a transmissão pessoa a pessoa. É importante proteger-se e manter-se em casa para evitar uma nova onda de transmissão.

Além disso, estamos no período sazonal outono/inverno, com a circulação concomitante do vírus Influenza (da gripe), o que resultou até mesmo na antecipação da campanha de vacinação. “Estamos realizando uma campanha de vacinação contra a gripe porque agora temos a concomitância com a gripe, que é causada pelo vírus Influenza. Neste momento, acreditamos que até maio possamos ter um aumento e, depois, uma aceleração da curva e, a partir do inverno, uma desaceleração da curva”, frisa.

Não só a capital como todos os municípios do interior adotaram estratégias para que os idosos sejam vacinados contra a gripe durante a campanha, observando os critérios de segurança para evitar contágio por Covid-19, seja com drive-thru, vacinação em domicílio ou outras. Mães com crianças recém-nascidas e as que estão em idade de imunização, devem procurar os postos de saúde. “As vacinas são muito importantes para a proteção das nossas crianças recém-nascidas e em seu primeiro ano de vida, assim como todas as consultas com os profissionais de saúde”, recomenda.

Sobre o risco para as grávidas, Acácia explica que, como é um vírus novo, ainda não se demonstrou que ele venha a acometer mais as gestantes como ocorreu na pandemia de 2009 (H1N1). “Mas é um vírus que gera alterações de coagulação e, como a gravidez gera alterações na gestante, é importante que elas façam isolamento social, evitem contatos com parentes contaminados, se protejam contra o coronavírus e não deixem de realizar as suas consultas de pré-natal, principalmente se tiver alguma comorbidade”, diz.

Higienização de produtos das compras

Ao chegar em casa das compras ou receber produtos por entrega a domicílio, as sacolas devem ser higienizadas com álcool 70% para poder, depois, guardá-las nos armários para uso posterior.

Transmissão de animal para ser humano

Ainda não há evidências científicas da transmissão de coronavírus de animais para humanos. A preocupação surgiu desde que, na semana passada, surgiu o caso de um gato, na Bélgica, infectado por coronavírus. Em Hong Kong, dois cães – um lulu-da-pomerânia e um pastor alemão – também deram positivo. Nos Estados Unidos, uma tigresa malaia, no Zoológico do Bronx, em Nova Iorque, foi mais uma espécie confirmada com a doença – mais meia dúzia de leões e tigres do zoológico apresentaram sintomas e estão sendo monitorados.

“Existem outros tipos de coronavírus. Um deles gera diarreia e acomete animais. Estudos que mostram evidências sobre o novo coronavírus (SARS-CoV-2) ainda não temos sobre essa situação”, destaca.

A Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) salienta que a propagação atual de Covid-19 se deve à transmissão de humano para humano.

Acácia recomenda que, ao retornar de passeios com o animal de estimação, se faça a higienização das patas e evitar que eles fiquem em contato com pessoas doentes ou que tenham contato próximo com outras pessoas.

Com mais de 1,2 milhão de casos registrados em pessoas, a infecção só foi confirmada em dois cães, um ou dois gatos e uma tigresa. Até agora não existe nenhum indício de que animais tenham transmitido o vírus.